quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TEXTO 05

Globalização e Circuitos da Economia Urbana em Cidades Brasileiras

Referência Bibliográfica:
SILVEIRA, Maria Laura. Globalização e circuitos da economia urbana em cidades brasileiras. Cuadernos Del Cendes. Caracas-Venezuela. Ano 21. Terceira época. Setembro-dezembro de 2004. ISSN: 1012-2508.

Obs.: Tradução livre realizada pela Profa. Virgínia Holanda, com objetivo de trabalho em sala de aula na Disciplina de Geografia Urbana.
Outubro de 2008.


Resumo:
Discutimos as relações entre o meio construído e a dinâmica urbana no período da globalização, enfocando os circuitos superior, inferior e superior marginal nas metrópoles brasileiras, especialmente em São Paulo. Áreas diferentemente equipadas por sua valorização seletiva, permitem a instalação de usos mais ou menos rentáveis, devido a força de um consumo que se aprofunda. O circuito superior pode ser identificado com as atividades modernas, geralmente vinculadas a exportação, enquanto o circuito inferior corresponde a formas de fabricação intensivas de trabalho e não modernas. O circuito superior marginal está constituído por formas mistas pertencentes tanto a atividades herdadas de divisões de trabalho pretéritas como formas de trabalho emergentes e inseridas nas atividades modernas.

A cidade como meio construído e como mercado
Neste trabalho apresentamos algumas idéias e resultados de um projeto e investigação cujo principal objetivo é a busca de uma compreensão mas sistemáticas das relações entre o espaço urbano e o movimento da sociedade, centrando atenção na segmentação da economia urbana no circuito superior, no circuito inferior e circuito superior marginal (SANTOS, 1975)
O ponto de partida e, sem duvida, considerar a cidade como um todo num permanente movimento. A cidade é uma totalidade, feita de coisas e pessoas, de objetos e relações, de formas e ações, num movimento desigual e combinado, em uma dinâmica de cooperação e conflito. A expansão acelerada de suas formas, materializada num processo de intenso de periferização que coloca os administradores frente ao problema de escala do acontecer, assim como reintera a hibridação de ações publicas e privadas numa política corporativa, menos visível, portanto onipresente como as novas morfologias, perturbam num difícil encontro de enfoques totalizadores. Frente a seu crescimento e multiplicação dos problemas. A totalidade urbana emerge, mas que antes, inesgotável, evitando tantas vezes o abandono gradual dos estudos globais sobre a cidade.
Se os retratos dificilmente podem ser exaustivos, a vocação totalizadora da teoria não pode faltar, pois a cidade não é somente uma soma das partes, nem somente um sistema de objetos, sim um conjunto de base material e da vida que a anima. Em outras palavras, a cidade será vista como um meio construído (uma determinada materialidade, quer dizer, pontos, linhas e manchas, contíguas ou não) e como um grande mercado (um conjunto de atividades realizadas em certo contexto e o setor da população associado por atividade e pelo consumo). Por isso podemos dizer que, na cidade, todas as atividades encontram seu lugar.
Se a consideração do meio construído como uma totalidade e uma premissa de método, e necessário abordar, ao mesmo tempo, os sistemas de ações ou em outros termos, ver a cidade como um conjunto solidário e contraditório, de divisões de trabalho. Suas funções mais modernas, aquelas que orientam sua inserção na atual divisão internacional do trabalho, não podem ser confundidas com a cidade em si mesma. Conjunto de todos os instrumentos de trabalho e de todas as formas de fazer, a cidade somente pode ser entendida se considerada a coexistência de divisões territoriais do trabalho. No somente os reinos das grandes corporações e dos grandes bancos, o reino do circuito superior, sim também o lugar do trabalho não especializado, das produções e serviços mias comuns, das ações vinculadas aos consumos populares-aquelas necessidades criadas neste tempo, mas cuja resposta nos e dada a todos pela economia hegemônica.
Daí a proposta de distinguir analiticamente, nessa totalidade, os circuitos da economia urbana. Enquanto o circuito superior está constituído por bancos, comercio, indústria e serviços modernos sempre orientados a exportação, o circuito inferior esta integrado por formas de fabricação que não são intensivas em capital, pelo comercio e serviços não modernos. O circuito superior marginal esta constituído por formas mistas, pertencentes tanto a herdadas de divisões de trabalho pretéritas como a formas de trabalho emergentes e incluídas nas atividades modernas. Não se trata, sem duvida, de atividades divorciadas, sim de um sistema de vasos comunicantes no quais todos os circuitos são resultados das modernizações e das respectivas transformações na divisão territorial do trabalho.
Na obstante, a compreensão da realidade total somente pode ser alcançada quando se considera como um período histórico determinado. Nos últimos 30 anos houve no Brasil uma importante modernização industrial, mas se pode admitir que o aumento da população empregada foi devido à profusão, nas metrópoles, de indústrias menos modernas, de escasso capital e cuja existência esteve vinculada a expansão do consumo tanto das classes media como dos pobres. Os estabelecimentos pequenos contratam cerca de dois milhões de pessoas no Brasil em 1980. O dobro da década anterior e duas vezes a quantidades de empregados das grandes empresas industriais. Portanto, de alguma maneira a pobreza tem sido uma trava a plena oligopolização da economia, permitindo que firmas menores subsistam naquelas porções da cidade mais desvalorizada.
Entretanto, a intensa urbanização, a reorganização do estado e da economia, a monetarização da economia e da sociedade que se vem completando, as agregações de ciência, técnica e informação na vida social e no território, e a diversificação e profusão dos consumos são dados novos do período, que alteram a natureza do espaço em que os circuitos da economia urbana se desenvolvem. Hoje, as metrópoles surgem como a sede de comandos vinculados a atividades modernas, mas ao mesmo tempo como o principal cenário de atividades de aglomeração-menos capazes de mobilidade espacial ou mais capazes de florescimento local. Associados ao circuito superior marginal e ao circuito inferior da economia urbana.
É importante o aumento das cidades milionárias e das grandes cidades medias (ao redor de meio milhão de habitantes) permite a diversificação e densificação da divisão do trabalho. Quanto maiores e mais populosas as cidades, mas capazes são de abrigar uma extensa gama de atividades e de conter uma lista maior de profissões (SANTOS E SILVEIRA, 2001), autorizando uma maior complexidade dos circuitos da economia urbana no período atual.
Esse mesmo processo de urbanização tem um papel relevante no mercado, que cresce e adquire espessura e segmentação. Nas grandes cidades brasileiras, o número de pobres é importante. Pois pela precariedade de seus recursos sua demanda e menos freqüente, seu numero, sempre crescente, traz certo efeito de compensação. As maiores cidades reduzem os custos de produção e circulação, mas isto é mais relevante para o circuito inferior e superior marginal.

A globalização, suas unicidades e os circuitos.
Frente às unicidades produtoras da globalização (SANTOS, 1996) – A cidade das técnicas, da informação e do dinheiro – as dinâmicas urbanas adquirem novos conteúdos. Hoje uma base material com vocação invasora distribui densidades e em áreas raras da cidade. Não obstante, o papel do consumo, fundado na publicidade e no credito (ainda mais quando uma boa parte dos objetos é descartável ou se move), amplia-se o uso dessa nova base técnica inclusive em áreas pouco modernas. Amparadas na convergência da informática e das telecomunicações e nas necessidades contemporâneas da produção e comunicação de idéias, imagens e dados em geral, os telefones celulares, computadores, equipamentos de fotografias e vídeo se tornam mais acessíveis às diversas classes sociais. Em 2000 havia 17,3 milhões de pessoas com computadores em casa, sendo que nas cidades da Região Concentrada (SANTOS Y TORRES RIBEIRO, 1979) as mais dotadas.
Em relação como os telefones celulares, sabemos que o serviço pré-pago se difundiu amplamente. Comprados com o propósito de aumentar a disponibilidade para as eventuais oportunidades de trabalho, sua densa presença mostra o papel do consumo entre os mais pobres e sua necessidade de comunicação, mas também a existência de uma rede fixa rara e sobre tudo um uso escasso pelo alto valor das tarifas de telefonia celular fixa. Assim, se as grandes corporações dominam a produção e a venda desses objetos, o resto da circulação permanece nas mãos de outros agentes. É o caso das reparações de alguns desses amparatos, assim como a revelação de fotografias e de aluguel de vídeos nas periferias. Por isso o funcionamento da base técnica depende também do circuito marginal e do circuito inferior, que são credores da economia, pois permitem a reutilização dos bens e a distribuição (muitas vezes sem interesse) para os grandes capitais. Desse modo, tanto pela expansão dos novos produtos, sempre transformados em instrumentos de trabalho das atividades não hegemônicas, como pela proliferação de atividades de reparação, os circuitos superior marginal e inferior participam, de forma crescente e às vezes contraditória, na produção da unicidade técnica.
Se os objetos vinculados às telecomunicações e a reparação de maquinas de base industrial amplia o universo do circuito superior marginal pela demanda de qualificação e de instrumentos específicos, a reparação de boa parte da atual base material e domestica fundada no consumo globalizado (como os eletrodomésticos e às vezes veículos) se refugia frequentemente no circuito inferior. Segundo estatísticas do (IBGE, 2003) em 2001, de um total de 791.954 micros e pequenas empresas de prestação de serviços no país, 77,493 pertenciam à manutenção e reparação de veículos e objetos pessoais e domésticos. Ou seja, 9,78% .
Os ligados à ciência, a tecnologia, a medicina e áreas afins revelam uma das manifestações da unicidade técnica contemporânea. No caso da indústria farmacêutica. Altamente concentrada em corporações globais responsáveis pela maior parte das investigações cientificas, a fabricação de medicamentos revela, sem duvida, interstícios que são ocupados por empresas medias e pequenas. Trata-se, por exemplo, de campos menos baseados na química, como a produção fitoterapêuticos próprios e um circuito superior marginal.
Ainda com sua vocação para envolverem-se num sistema invasor, que despreza as solidariedades com objetos técnicos mais antigos, as técnicas contemporâneas possuem uma qualidade inexistente em períodos anteriores. São diviseis, flexíveis, dóceis (GAUDIN, 1978, 1999; SANTOS, 1996, 2000) porque permitem, por exemplo, que com alguns instrumentos e num pequeno local, fabricar um produto ou organizar um serviço que pode ser vendido. Por seu feito demandar inteligência e informações traz possibilidades de usos e escalas distintas. Essa é uma grande diferença desse sistema técnico do período industrial.
Por essa razão, a informação e a verdadeira energia que impregna a ação contemporânea. Mas e também produtora de unicidades. Certa informação de cunho globalizante, verticalmente produzida e difundida, aparece como sinônimo de tempo hegemônico do período, indutora de um pensamento único e de comportamentos normalizados. Essencial às divisões territoriais do trabalho particulares das corporações globais, a informação estratégica materializa os nexos extrovertidos do território brasileiro (CORDEIRO, 1993; CORREIA, 1996) e, podemos assegurar, e um sofisticado circuito superior, principalmente localizado na cidade de São Paulo. A formulação das bases técnicas, políticas e normativas, precisas e funcionais das exportações, privatizações e fiscalizações, e definidora do novo uso do território nacional, assim confiada a um restrito grupo de empresas mundiais e nacionais de consultoria (BERNARDES, 2001). Se o espaço de sua ação se confunde com o território nacional e com o mundo, a intensidade de suas demandas num espaço contíguo é débil. Não há uso intensivo da força de trabalho, nem de tecnologia, nem de informação do lugar, assim como não há dependência dos mercados contíguos. Diante das grandes aglomerações urbanas brasileiras a questão é: como sobrevive a maior parte da população sem trabalho cujo contexto não passa da escala da metrópole? Será que quem trabalha em atividades dependentes da contigüidade espacial não utiliza as variáveis do período atual? Ou há uma produção própria, por exemplo, de informação e publicidade? Que informação técnica e mercadológica está, então, na essência da ação da maioria da população urbana?
O consumo e ação e por isso está hoje impregnado de informação. Poucas são as atividades, empresas e lugares que parecem permanecer alheios, por exemplo, a um forte conhecimento da publicidade próprio de nosso tempo. O resultado desse ato de império e a existência de agencias pequenas e medias que participam da produção global de propagandas graças às formas e normas da terceirização, assim como de firmas criadoras de uma publicidade para o pequeno comercio e para alguns serviços. Assim, cartazes nas ruas, banners, e outro tipo de cartões, que podem ser rapidamente fabricados graças às virtualidades das técnicas contemporâneas, colonizam as áreas vizinhas atingidas com a atividade anunciada. No espaço da contigüidade, se observa uma interrelação com os circuitos da economia urbana.
No período atual, a imitação – une os pilares do funcionamento do circuito inferior – se faz sobre novas bases. A relevância que o negocio da moda adquire no momento atual, com a profusão de cursos básicos e superiores de confecção, com novidades na produção de materiais e tecidos crescentemente híbridos, com a proliferação de revistas e desfiles, com a expansão do credito e da propaganda, determina que esse consumo se expanda na sociedade e no território. Modistas, costureira.. Entre as classes mais pobres, tem ai uma possibilidade maior de exercer a imitação de consumo sofisticados.
É também o caso de moveis de decoração dos lugares. Esse mercado está em expansão, que não alcança somente as classes mais ricas da sociedade, atrai toda uma produção industrial e artesanal, que envolvem pólos específicos em cidades intermediárias e nas metrópoles, atividades de restauração de moveis antigos, feiras artesanais e reparações. Bairros e cidades adquirem uma marca de especialização produtiva na luz dessa demanda que nos dias atuais parece ser elástica.
De um modo geral, o espraiamento da cultura se converte também em um mercado em expansão. A distribuição de vídeos, a produção e venda de artesanatos, a gravação e distribuição de musica, as múltiplas formas de edição de livros, revistas e folhetos fazem mais esparsa a divisão do trabalho, permitem localizações mais flexíveis, demandam instrumentos de trabalho específicos. Atualmente há mais possibilidade de ser comprados e forma organizações modernas combinadas com relações amizade, parentesco e vizinhança. Estamos diante de profuso circuito superior marginal vinculado a cultura.
Finalmente, a unicidade do motor ou em outras palavras, a apropriação da mais valia por um pequeno numero de atores globais, fundada na nova base material e na possibilidade de dispor de informações num tempo real, a responsabilidade das acelerações do período. Aumenta vertiginosamente a velocidade de produção do dinheiro no estado puro porque aumenta o numero de mecanismos verticalizados capazes de extrair mais recursos de mais atividades, de mais pessoas, de mais lugares. A publicidade e o credito são estratégias eficientes nessa guerra por uma maior acumulação de capital. Como cada porção da cidade e avaliada em função de sua capacidade de reproduzir dinheiro, algumas valem tesouros disputados enquanto outras são desprezadas.
O abandono de instancias, setores e lugares são ocupados pelo circuito inferior, importante para completar o trabalho tão fortemente dividido na metrópole, pois o circuito superior não se preocupa por exercer esse papel. No Brasil dos 3,3 milhões de empregos do setor de serviços corresponde o micro e pequenas empresas, mais de 400.000 pertenciam a transportes e serviços auxiliares dos transportes (IBGE, 2003) 12,12%. O caso das diversas formas de distribuição de mercadorias, objetos, documentos e pequenos valores na grande cidade.
Não obstante, a expansão do credito parece não deixar de lado nenhuma parte do território de sua economia. A capacidade das redes financeiras resulta da coexistência de filias de grandes instituições financeiras como Panamericano, Crefisa, o Zogbi, de todo tipo de usura e da profusão de novos tipos de credito oferecidos por bancos públicos e privados. A rentabilidade dos bancos brasileiros, por exemplo, passou de 10,6% em 1994 e 15,7 % em 1988 d de 24,5% em 2002. Ao contrario da produção, que e seletiva nas eleições das localizações, as finanças se interessam direta e indiretamente pela totalidade do território que tem vida. E por isso que podemos afirmar que não se trata somente de uma variável determinante, sim também de uma variável dominante, responsável de uma drenagem que não se conhece limite.
Assim, o circuito inferior, caracterizado pelo seu baixo grau de capital fixo tecnológico, e obrigado a aumentar seu capital de giro por meio do credito, ainda mais quando muitos dos pequenos empresários trabalham como pessoa física. Quando os empréstimos bancários as empresas era de 25% anual, para as pessoas físicas era de 57% anual. A vulnerabilidade aumenta com a utilização do cheque especial, créditos pessoais ou cotas e, sobretudo, empréstimos pessoais às financeiras, pois os interesses alcançam valores extremamente altos (entre 50% e 160% anual). Como o numero de pessoas sem conta bancaria ou incapaz de dispor de necessárias garantias e significativo, o empréstimo pessoal concedido por instituições financeiras encontra um terreno fértil. Formas de verticalização de uma economia geradora de um circuito inferior que num período de globalização, conhece grande superlativos.
O circuito superior marginal não está a salvo dessa emboscadas. Os mecanismos leoninos de credito também alcançam as praticas desses atores. Por outro lado, o sistema de franquias, um conteúdo novo do período, parece enraizasse em alguns dessas atividades e assim, tornar mais complexo o reconhecimento desse circuito. Seu grau de organização é bastante alto, pois as formas e as normas da natureza e uso do capital e da tecnologia são prescritas pela firma matriz, a gestão cotidiana e os riscos são assumidos pelo empresário pequeno ou médio, que deve cumprir com os direitos e royaltes e, nessa complexa situação, encontrar sua modesta equação de lucro. Verificamos este feito em algumas entregas expressas e escolas de línguas. Trata-se de uma manifestação organizacional das mais atuais unicidades.

EXPRESSÃO REGIONAL DOS CIRCUITOS DA ECONOMIA URBANA
No período de globalização novas fontes de riqueza e de pobreza se multiplicam nas grandes cidades, às vezes busca se adaptar as demandas da economia mais modernas, adequando seu meio construído as respectivas exigências e racionalidades. Mas esse fenômeno alcança somente uma pequena parcela do espaço urbano. Inclusive porque os custos são muitos, enquanto o resto da cidade mostra uma grande variação de infra estrutura e valores. A criação da racionalidade e certamente, limitada (SANTOS, 1996).
O Brasil que se globaliza e ao mesmo tempo, um Brasil que se metropoliza e por isso a explosão do circuito inferior e concomitante a enorme expansão urbana, tantas vezes na base de um processo de urbanização sem industrialização. A crise econômica recorrente no período da globalização produz uma extensão da periferia pobre (ALMEIDA, 2000) e uma deteriorização do meio construído urbano já existente. (sobre todos os centros), que também se desvaloriza pela modernização de outras partes da cidade. Esse processo está sempre acompanhado por uma multiplicação de atividades de sobrevivência.
O crescimento do circuito superior marginal residual se dar pela incapacidade de modernizar-se no ritmo imposto pela época. Mas paralelo, a normalização, a relevância e precedência do trabalho intelectual, e o caráter cientifico das atividades e da expansão do consumo são pilares do crescimento de um circuito superior marginal emergente. Por isso, este circuito pode ser visto como um laboratório da substituição de uma divisão de trabalho por outra. A decadência e emergência de profissionais e empresas vinculadas às formas hegemônicas de fazer e mandar alcançam diretamente o circuito superior marginal, enquanto certos saberes se desvalorizam outros surgem.
Nas grandes metrópoles da Região Concentrada e especialmente em São Paulo, a cidade moderna, pivô central das geometrias das grandes empresas, ver ampliar seus fazeres e os horizontes das ações que abriga, pois se envolve também no lugar do encontro das topologias das corporações globais na América do sul. A necessidade de informação precisa de diversos tipos de dinheiro atribui novos papeis as metrópoles e consolida ainda baseada na segmentação sócio espacial, sua existência com um grande mercado.
Como a expansão do meio construído se acelera, as valorizações e desvalorizações dos pedaços da cidade são frenéticas, possibilitando a instalação, aqui ou ali, de atividades menos capazes de dar valor a seus produtos. A extrema variedade de capital- fixos e variáveis –assegura a existência de uma extrema variedade de trabalho. As estacionalidades relativas a cada atividade econômica se superpõem e desse modo, tendem a anular-se, oferecendo um mercado de trabalho permanente. Assim, a cidade grande se volta mais apta para abrigar um circuito inferior.
Não existe, por tanto, uma única área de mercado da cidade como pretende a teoria dos lugares centrais, cuja premissa de método e identificar o setor moderno com a economia urbana. As atividades de pequena escala, cujos atores são os mais pobres, tem relações privilegiadas com sua região. Nem se quer as cidades que reconstrói seu presente a imagem das variáveis hegemônicas está formada somente pelo setor moderno (CIRCUITO SUPERIOR), sim também por um circuito inferior, que não é um freio da modernização e sim seu resultado, e incluso, por um circuito superior marginal, nascido sobre tudo em função da relevância que adquire a circulação. Muitas vezes próximo ao circuito superior pela funcionalidade de seu trabalho, o circuito superior marginal se enlaça com o circuito inferior pelo comportamento de seus atores.
Ainda que as estatísticas não possam revelar fielmente a natureza e a magnitude do circuito inferior nem do circuito superior marginal, e importante dizer que em 2001 somente as micro e pequenas empresas de comercio e serviços (pouco mais de dois milhões de estabelecimentos) contratavam 7,3 milhões de pessoas (desse total ¾ eram empresas que contratavam ata 5 pessoas), quer dizer, cerca de um décimo da população ocupada no Brasil. O número de empresas vem crescendo, especialmente sua contribuição para criar empregos. Em 1998, 5,5 milhões de pessoas trabalhavam nessas firmas, o que significa que houve um aumento de mais de 32% entre 1998 e 2001 (IBGE, 2003). Pautadas no trabalho intensivo, muitas dessas firmas são familiares, mas seu denominador comum é o escasso capital. Segundo o mesmo estudo, e de 30% o custo dessas pequenas unidades empresariais que corresponde a gastos com pessoal e somente 4% aluguel e arrendamentos de maquinas, veículos e outros equipamentos. Sua adaptação e localização, edifícios e sistemas técnicos menos valorizados se reflete na composição de seus gastos.
Destinar uma proporção maior de rendimentos ao pagamento de mão de obra em lugar de aumentar e modernizar o capital fixo (sobre tudo localização e maquinarias) não deixa de ser no período atual, uma produção de irracionalidade. Uma boa localização, capaz de atrair grupos de população de maior poder aquisitivo, assim como a compra de equipamentos modernos, que dispensam mão de obra, seus gastos sociais e os eventuais conflitos, seriam certamente, formas de produção racional.
Essência das políticas do poder público e das grandes empresas, essa racionalidade se revela limitada, sobre tudo nas grandes metrópoles. Do norte ao sul do Brasil urbano, as maiores metrópoles São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Brasília – suportam índices de desemprego ao redor de 20% de população economicamente ativa (PEA) (Dieese, 2003). Sem duvida, qual a racionalidade de uma economia urbana que despreza, como em Salvador, cerca de 30% de sua PEÃ? O certo é que cada há menor numero de atividade e emprego relacionado com essa racionalidade hegemônica e isto é mais visível nas grandes cidades do Brasil.
Frente essa realidade, uma enorme parte da população deve encontrar uma atividade e um lugar dentro da cidade – que seja capaz de permitir sua sobrevivência. E uma economia de baixo pra cima (SANTOS, 1996; 2000) que parte do principio de que os mais pobres, os vencidos, os demais trabalhadores podem consumir os produtos e serviços oferecidos. E uma cooperação que se completa na contigüidade e por tanto não necessita ser fluida, nem competitiva. Essa cooperação pode assim ser lenta e por isso é vista como irracional.
Armazéns, mercearias, padarias, pescarias, frigoríficos, verdureiros, coexistem com as densas topologias dos grandes supermercados e dos modernos drugstore. Nesse comercio de contigüidade, a liquidez não é obstáculo, pois utilizam vários tipos de dinheiro e de credito (Ticket, vale-transportes, compra fiado, compra com caderneta). Completam o retrato os pequenos comércios de roupa, de bijuteria, de sapatos assim como cafeteiras, bares, pequenos restaurantes, pizzarias e sorveterias.
Entre as pequenas firmas, os serviços técnicos profissionais prestados as empresas representam 27,8% do total. Trata-se de serviços jurídicos, de contabilidade, auditoria, consultoria empresarial, serviços técnicos de engenharia e arquitetura, publicidade e propaganda. As atividades de informática também aumentam sua proporção. Juntos, aos serviços técnico-profissionais e as atividades de informática somam cerca de 125.000 empresas que contratam mais de 400.00 pessoas. (IBGE, 2003). Ainda que o capital fixo pode não ser muito significativo, a existência de um conhecimento cientifico e de uma rede de relações faz dessa atividades um circuito superior marginal.
Mas da metade do conjunto da micro e pequena empresa comerciais e de serviços se concentram na região sudeste e somando e sudeste com o sul a Região Concentrada, abriga cerca de 78% do total nacional. A alta urbanização desses estados ajuda a explicar esse retrato. Somente no estado de São Paulo as micros e pequenas empresas de comercio e serviços empregam mais de 2,2 milhões de pessoas. Na região Nordeste o total passa um pouco de um 1 milhão de pessoas, contratando com os modernos estados do centro-oeste, onde o circuito inferior parece ser mais débil (pouco mais de 500.000 pessoas são contratadas nas firmas desse tamanho.).
Quanto mais populosa e a cidade, maior e segmentado é seu mercado, apoiado em um vasto meio construído, mas bastante fragmentado enquanto seus valores, ainda que se trate de áreas modernas da região concentrada. Isto nos autoriza a falar de áreas de diversidade e áreas de especialização.
Nas áreas de diversidade, o trabalho se especializa e se divide em múltiplos circuitos espaciais da produção, cuja área de mercado é o bairro ou a cidade em virtude de sua condição não hegemônica. A circulação e determinante e por isso os circuitos diferentes se entrecruzam e criam um mercado (segmentado) que se nutre da diversidade de fabricação, de comercio e de serviços. São pontos e áreas densas da divisão do trabalho onde coexistem técnicas de diferentes momentos históricos. Os edifícios são quase manifestações mais claras das rugosidades que vem do passado, por sua idade e por suas condições. Neste reino do circuito inferior e também de um variado circuito superior marginal em áreas de grande circulação como o largo treze, o largo do pinheiros e o próprio centro antigo da cidade de São Paulo ou incluso, em áreas renovadas como o bairro Tatuapé. E também o caso de centros antigos como Rio de Janeiro e de Porto Alegre, assim como das áreas contíguas os terminais de ônibus em todas as grandes metrópoles brasileiras.
Ainda que a existência dessas áreas de diversidade não seja um fenômeno exclusivamente metropolitano, o volume da circulação nesses pontos, manhcas e líneas evidencia que se trata de grandes corpos urbanos. As áreas de especialização urbana, ao contrario tende a ser um dado do fenômeno metropolitano. Ali o trabalho se especializa e se divide dentro de um mesmo circuito espacial da produção, envolvendo diversas etapas e atores de diferente poder em complexos processos de cooperação e competência. Em uma cidade como Belém encontramos uma área especializada em comércios de máquinas e ferramentas para a exploração de madeira e para as embarcações do espesso sistema de movimento fluvial que preside. Em uma macro-metropole como São Paulo, se poderia mencionar várias áreas: a zona cerealista no centro, produtos eletrônicos na rua Santa Ifigênia, artigos de iluminação e material elétrico na avenida consolação, vestidos de noiva na rua São Caetano, confecções nos bairros Bom Retiro e Brás, entre outros. Ao menos a existência dessas economias de aglomeração da escala urbana nos fala de suas relações de produção e de mercado com a cidade, com a região, com o país. Sua especialização produtiva é causa e conseqüência da densificação do espaço de fluxo (mais transportes, mais comunicação, mais finanças) e por tanto, essas áreas são lugares de coexistência dos circuitos da economia urbana que sem duvida, podem terminar aumentando o valor da localização e do meio construído e com isso expulsar alguns atores.
Essa é uma das manifestações da aceleração contemporânea. Uma nova demografia empresarial se apresenta diante de nossos olhos. Natalidade, mortalidade, migrações de empresas são processos freqüentes e velozes. Se para as grandes corporações as fusões são comportamentos habituais nestes tempos, o fenômeno mais corrente para as firmas dos circuitos inferior e do circuito superior marginal são as altas taxas de mortalidade. Assim mesmo são altas as altas de natalidade e as vezes as taxas de mortalidade refletem nas migrações do ramo de localização.
Se a velocidade de acumulação de lucro não é rápida, como reza o mandamento da globalização, o dinamismo do circuito inferior e do circuito superior marginal não pode ser ignorado. E exatamente sua venerabilidade que exige dessa economia de baixo um importante dinamismo. Em 2000, as mais altas taxas de mortalidade se verificou nas empresas de serviços que contratam até 5 pessoas. 19% e nas firmas comerciais do mesmo tamanho 15,8%. Mas esse mesmo segmento e o que registra as mais altas taxas de natalidade 27,1% e 22,7% respectivamente. E uma tendência que se verifica nos últimos anos. Esses dados contrastam com o comportamento das firmas que contratam mais de 20 pessoas, cuja a taxa de natalidade foi de 6,6 para as atividades do comercio e de 9% para os serviços em 2000. Vemos assim como em cada divisão do territorial do trabalho vários interstícios são ocupados pelas pequenas empresas.

AS PORTAS DA MODERNA SÃO PAULO, JÁ NOS REVELA SUA OUTRA FACE.
Se as crises econômicas constituem um freio na renovação da maior parte do meio construído, o neoliberalismo, com a pretendida estabilidade monetária, parece haver desencadeado um processo acelerado de renovações urbanas pontuais, para certas áreas da cidade de São Paulo fluem, sem viscosidades, torrentes de dinheiros bajo da forma de empréstimos privados, internacionais e nacionais, com freqüência vinculada à esfera do poder publico. Vêem se os exemplos da construção de edifícios residenciais de classe media - cada vez mais longe do centro da cidade ou verticalizando áreas tradicionalmente baixas – de bairros cercados dentro ou fora da grande mancha urbana, ou a renovação do antigo centro urbano comandada pelo Banco de Boston.
Uma área tradicional central como a zona cerealista – nascida no abrigo do ferrocarril Santos-Jundiaí cuja localização e equipamento continuaram funcionando quando do sistema de movimento de cargas (arroz, batatas, cebola) foi convertido ao transporte automotivo – parece não resistir aos impactos do período atual. Sua virtual transferência fazia uma nova área de cruzamentos (vias Regis Bittencourt e Raposo Tavares) e uma ação política baseada em dados técnicos e organizacionais novos: as atuais áreas produtoras (Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Maranhão), têm um grau de acessibilidade e os problemas de transito de cargas, os novos equipamentos de comunicação (telefone, computador, fax, correio eletrônico) e a logística dos grandes supermercados (pedidos informações, terminais exclusivos, marcas próprias). Se nos projetos oficiais se mentem o uso, essa transferência significará que nem todos podem acompanhar os custos desse desenvolvimento.
Concretizados ou em vias de implantação, numerosos projetos parecem coincidir na busca de localizações periféricas, bem dotadas de infra-estrutura, próximas às autopistas de acesso a cidade que garantem o exercício de uma circulação mais fluida e especialmente onde a instalação dos atores seja mais seletiva. Como o novo centro empresarial da Avenida Berrine, essas localizações em zonas circundantes as autopistas parecem confirmar a adaptação de um modelo de urbanismo periférico de origem norte americana.
Essa produção permanente de escassez adquire sua expressão contemporânea na aplicação de receitas de cunho macroeconômico nas quais o capital e sempre mais abundante que o trabalho para os atores hegemônicos em detrimento da economia real do país e da cidade, na qual o trabalho e sempre mais abundante que o capital. Estado e empresas, tantas vezes cooperando ou em conflito, tem tido um papel determinante na produção do desemprego, num claro indicio da produção limitada de racionalidade.
Estruturalmente a cidade cria, ao mesmo tempo, riqueza e pobreza, abundancia e escassez. Vetores internos e externos tem o papel de acelerar ou desacelerar as necessárias e permanentes readaptações. Por isso, tanto na metrópole industrial como na metrópole informacional-financeira os circuitos da economia urbana se desenvolvem na forma de vasos comunicantes, pois sendo ambos o resultado da modernização, encontra hoje as condições de sua reprodução. Ainda mais, identificada com a chegada de um novo circuito marginal, orientado a codificar e decodificar os objetos e as normas necessárias ao novo momento do modo de produção. Nascem os escritórios e empresas, muitas vezes vinculadas às novas profissões, que prestam serviços às firmas hegemônicas ou ao poder publico. Em 1999 havia 3,7 milhões de pessoas no setor de serviços, o equivalente a 53% da PEÃ na região metropolitana de São Paulo (um incremento de 1,4 milhões de pessoas em relação a 1981).
Se a divisão social do trabalho que acompanha o mundo da informação e das finanças multiplica as profissões, diminui ao mesmo tempo o número de empregos. As formas técnicas e de regulação contemporânea satisfazem seu apetite com um numero menor de pessoas altamente qualificadas. O emprego tradicional da metrópole industrial se esfuma, por um lado, ao ritmo de novas acelerações normativas, como as formas temporais de contratação, a terceirização e a interiorização da indústria que sinônimo de modernização e de busca de novas densidades normativas e por outro lado, pelas novas ocupações na produção e adaptação das informações externas ao mercado brasileiro, pela criação de uma publicidade que produza os consumos e pela produção codificada de formas de fazer e regular, como se ver os instrumentos financeiros em vigência.
As reformas neoliberais, portadoras da racionalidade da época, foram responsáveis, pela diminuição do numero de empregos vinculados às atividades modernas nas empresas do setor publico. Automatização, reengenharia de processos, redução do chamado redução do estado, diminuição das vendas, entre outras, foram as razoes usadas para concretizar as demissões. Quando estas eram os chamados “retiros voluntários”, um novo elemento aparecia na economia urbana, pois as indenizações resultantes procuravam implantar as antigas, novas e renovadas funções da divisão do trabalho. A natureza volátil dos capitais da grande corporação e sua geometria mundial contrasta com a existência dos pequenos capitais das famílias no próprio meio construído urbano, empreendendo uma nova atividade econômica. A cidade São Caetano do Sul na Região Metropolitana de São Paulo e talvez um bom exemplo, a partir da instalação de negócios e empresas de serviços por parte dos antigos operários da indústria automotiva.
A concentração de pobres na cidade de São Paulo tem um efeito positivo sobre os volumes produzidos e comercializados. Cria-se um mercado que, apesar das demandas individuais limitadas, constituem pelo grande numero de família, um efeito ampliado. Graças aos custos de produção mais baixos para ampliar oferta e proximidade de insumos, mão de obra e clientes, surge um numero considerável de pequenas empresas e desse modo, ainda que a mortalidade das firmas pode ser alta, a demanda constante possibilita que outras possam nascer.
Na própria garagem da casa pode funcionar o escritório das pequenas empresas de fretes e mudanças. O caminhão ou a camioneta própria e ao menos um fator que define a capacidade de trabalho mensal. Variando entre 7 e cerca de 40 mudanças por mês, as empresas contratam alguns ajudantes para realizar um trabalho que geralmente e no mesmo bairro ou em bairros contíguos. Localizações em áreas residenciais, como Butantã ou Pinheiros, são privilegiados por oferecer permanentes possibilidades de trabalho. Pequenos cartazes fixados em postes e muros de bairros e um telefone, às vezes celular, são os instrumentos indispensáveis para assegurar a demanda. Paralelamente se criam solidariedades econômicas com os coletores-vendedores de caixas de papelões.
A contigüidade e um dado central também para um bom numero de costureira e modistas entrevistadas que, dedicada a essa atividade por falta de emprego, trabalha em casa com uma ou duas maquinas domesticas, frequentemente compradas de segunda mão. Vivendo em bairros como Santo Amaro, Itaim Bibi, Brooklin, Jardim Bonfiglioli o Alto da Boa Vista, se deslocam ate Brás e Bom Retiro, áreas de especialização comercial, para comprar insumos. A quantidade de roupas configura um verdadeiro mercado, indicado entre clientes e conhecidos, já que a importância no setor têxtil e confecções têm afetado gravemente a produção da vestimenta sob medida.
Entre as numerosas situações do circuito superior marginal, os mensageiros se espalham pela cidade ao ritmo de uma intensa necessidade de cooperação e dos obstáculos à circulação. Mas que o grau de capitalização, e a capacidade organizativa que define as empresas. A agencia recebe os pedidos e ordena as viagens que são realizadas pelos trabalhadores com suas próprias motos. Para efetuar o transporte de documentos e pequenas mercadorias para escritórios e empresas das imediações, numa media de 200 viagens por mês, o pessoal contratado e pago por hora de trabalho.
O desenvolvimento das técnicas de informática também tem permitido a instalação das chamadas expressa que em pequenos locais, podem oferecer uma boa variedade de produto: cartões, folhetos, entre outros. Os equipamentos de trabalho são computadores (cujo numero varia de 3 a 20 nos casos dos entrevistados), scanner e soffwares específicos (como o corel). Algumas empresas compram equipamentos usados. Sua localização são em áreas valorizadas como um shopping-center com aluguel que passam de 2.000 reais, ou em áreas, mas deterioradas, como áreas de passagens e praças de grande circulação de pessoas, permite ganhar um mercado de empresas e famílias. Observamos ademais, que existe uma divisão de trabalho e uma cooperação entre as imprensas tradicionais, de localização mais periférica e orientadas a produção de grandes volumes e as empresas expressas. Com freqüência estas ultimas são responsáveis de trabalho menor, enquanto as indústrias tradicionais se encarregam, graças a seus equipamentos das grandes tiradas (impressão off set). Quanto a imprensa de maior tamanho, seu mercado está constituído por empresas e abarca amplas regiões, quando firma e pequena, seu mercado está dado pelas famílias num bairro ou na cidade. As demandas de cartões, material promocional e impressão de trabalhos, todas agregam outros serviços como fotocópias, encadernação, plastificação e serviço de fax. A publicação, vista como um suporte indispensável da produção acaba configurando-se como um nicho de mercado para essas firmas. Sua atividade se encontra bastante “financeirizada” compras de equipamentos com leasing bancário, transações diárias com bancos privados -, mas paralelamente alguns usan ticket como moeda, várias delas são franquias.
A divisibilidade das técnicas atuais tem permitido, também, uma certa disseminação do trabalho de produção musical. A convergência das técnicas de informática e de musica ampliou a quantidade de possibilidades de criação e de divulgação. A esse contribuem também as novas ou renovadas formas organizacionais como a terceirização do aluguel dos estúdios por hora de trabalho. Neste caso os pequenos estúdios de ensaio e gravação investigados na cidade São Paulo, que contam entre seus instrumentos de trabalho, geralmente comprados usados, computadores, softwares (como el sound Ford e el protus) para digitalizar as musicas, mesas de som, microfones, cabos, instrumentos musicais, amplificador e retorno, entre outros. Os computadores são também utilizados para produzir a própria propaganda (folhetos que serão distribuídos em comércios de instrumentos musicais e casas de espetáculos) , assim como para obter informações sobre técnicas, mercados, incentivos e oportunidades de negócios através da internet. O resto da informação e da propaganda provém de revistas especializadas e de intercambio de informações boca a boca, nos ambientes musicais. Os estúdios funcionam em antigas residências preparadas para tal fim, ainda que às vezes se instalem nos fundos da própria casa e menos frequentemente, são locais alugados. Nestes casos, os valores oscilam entre 200 e 1000 reais. Não formam uma área especializada da cidade, estão dispersas em áreas residenciais e bem localizadas da capital. Contratam um ou dois auxiliares técnicos para os ensaios e gravações, mas esse número pode aumentar no caso dos estúdios que funcionam 24 horas. O uso dos instrumentos financeiros por parte das pequenas firmas se confunde com o uso de seus produtos por parte de seu proprietário. (cheques, cartões, depósitos emitidos ou recebidos como pessoa física e não jurídica). Conforme seu tamanho e sua sofisticação técnica contam entre seus clientes as classes medias e altas ou grupos mais pobres da população. sua margem de lucro oscila entre 45% e 60%.
A refuncionalização de casa em bairros como Pinheiros, Cerqueira César e Bela Vista para instalar uma atividade ligada à produção cultural se tornaram um fenômeno freqüente na cidade de São Paulo. Assim como os estúdios também mencionados nas pequenas e medias editoras de livros e revistas. Geralmente pagando aluguel que superam os 1000 ou 2000 reais, as editoras são dirigidas por pessoas com formação profissional técnica na área de contabilidade ou de nível universitário e enquanto as pequenas contratam de 3 a 6 empregados, as empresas medias empregam ao redor de 20. Todas as firmas entrevistadas estão registradas como pessoa jurídica e seus empregados possuem registros de trabalho, representando de 30% a 40% dos gastos.
Essas localizações foram escolhidas em função da acessibilidade e prováveis clientes e mão de obra, assim como pela oferta de serviços. A quantidade de instrumentos de trabalho é central para determinar sua força de mercado. Equipados com telefones fixos e celulares, maquina de fotocópias, computadores (que variam 3 a 40), impressoras e scanner, algumas possuem também maquinas fotográficas, filmadoras e outras tecnologias vinculadas a imagem. A virtualidade da informática torna possível o trabalho de edição, no qual se completa mais tarde com o trabalho material tercerizado numa empresa e em algum caso, com serviços de fotografia e reportagem. Vê-se aqui uma solidariedade entre atores do circuito superior marginal.
A multiplicação dos consumos e da divisão do trabalho possibilita a existência de um numero crescente de revistas generalizadas e especializadas, cuja comercialização não se reduz unicamente aos postos de diários e revistas e as livrarias, sim também se estende as vendas por assinatura. A produção de livros tem sido beneficiada por leis especificas de incentivo e por associações com editoras universitárias e agencias de financiamento de investigação e suas vendas se multiplicam pelo aumento do numero de feiras gerais e universitárias. A participação dos consumos religiosos e também um dado importante, se destaca o exemplo das editoras evangélicas.
A propaganda se faz através de folhetos produzidos na própria firma, na internet, outdoors e também nas agencias de publicidade. Com esses meios se tem acesso a um mercado que para algumas empresas chega a ser nacional. Todas as editoras entrevistadas trabalham com vários bancos e usam hoje mais serviços que no inicio de suas atividades. As firmas menores já utilizam o limite do cheque especial e o período de existência de interesse. Os empréstimos solicitados como pessoa jurídica se destinam a saldar dividas e a manter-se no mercado. Oferecem aos clientes diversos instrumentos para pagamento; cheque ao portador, e cheque de terceiros, cartão de crédito, dinheiro, boleto de deposito, débito automático... Existem relações horizontais entre empresas do mesmo ramo, principalmente para intercambio e atualização de informações.
Por outro lado, o aumento da demanda na oferta de cursos de diversa natureza, fundado na necessidade da qualificação profissional e às vezes num certo consumo cultural, e um dado a mais um período contemporâneo. Investigamos alguns cursos de informática, de línguas, de gastronomia e cursos preparatórios para exame de ingresso na universidade. No caso de ensino de idiomas, assistimos uma grande competência entre as escolas grandes e de menor tamanho. Aqui, a criação de uma demanda, por parte de uma agressiva propaganda do circuito superior, acaba por contribuir para o surgimento de pequenas e medias escolas de bairro, que se beneficiam da proximidade de seus potenciais alunos. Computadores e equipamentos de imagem e som são os principais instrumentos de trabalho, ademais os materiais escritos. Esses últimos são as verdadeiras verticalidades que amarram a pequena empresa a atores poderosos. E sobre tudo no caso de franquia, nas quais os royalties por uso do material escrito alcançam 20%. Contribuindo a aumentar a demanda própria do inicio de cada semestre, as pequenas campanhas distribuem panfletos nos bairros vizinhos, incluindo as empresas. E destas que provém a maior parte da demanda e ao menos são as que pagam os cursos. Não obstante, verificamos a existência da associação das escolas independentes de idiomas que busca, por meio de ações conjuntas como prêmios, aumentar sua participação na relação com os institutos associados as franquias das grandes escolas. A topologia das escolas de línguas adquire assim capilaridade.

A METRÓPOLE EXTENDIDA
A densidade da divisão territorial do trabalho no estado de São Paulo nos permitiria comparar ofertas desse espaço com as ofertas da grande metrópole. Suas densidades vias, inforvias e seu movimento, sua intensa organização e os graus de organização política no poder publico e as empresas são formas de cooperação que completam essa profunda divisão do trabalho. Assim, se a intensa especialização do trabalho na cidade atrai um circuito superior marginal emergente, com um crescente numero de pequenas e medias empresas modernas, a intensa cooperação mostra um numero significativo de empresas vinculadas ao diálogo entre essas instancias.
Neste contexto, nossa preocupação tem sido relacionar a vida dos circuitos inferior e superior marginal com as especializações territoriais produtivas nesse estado. Onde o meio técnico cientifico informacional se amplia e densifica. Apresentado como característica constitucional do espaço nacional e ao mesmo tempo como hipótese, no livro O BRASIL: território e sociedade no inicio do século XXI, o tema das especializações produtivas foi retomado a partir da perspectiva das pequenas e medias empresas que nascem e crescem nessa vida de relações assim recriada. E no circuito superior marginal emergente, capaz de florescer num pedaço do território onde a divisão interurbana e intra urbana do trabalho e significativa. Centramos nossa investigação no pólo de confecção de Americana, Santa Bárbara d’oeste, Nova Odessa e Sumaré, nas produções de calçados masculino, femininos e infantis de Franca, Jaú e Birigui respectivamente em objetos de ferro e cerâmica de Porto Ferreira, na produção de flores e frutas de Atibaia e na fabricação de moveis de Votuporanga e Mirassol. E neste ultimo caso, ademais de alguns mercados de exportação, detectamos o monopólio exercido por uma grande empresa como as casa Bahia com fabricantes locais. Em relação as indústria de calçado, ademais firmas cuja produção começa a ganhar mercados extra-regionais, nacionais e internacionais, identificamos uma profusão de fornecedores de pequenos insumos, assim como de serviços que são essenciais para completar o processo de produção e que constituem o circuito inferior e o circuito superior marginal.

QUESTÕES ABERTAS SOBRE O BRASIL URBANO E GLOBALIZADO
A indagação sobre o uso das variáveis determinantes do período e suas novas combinações foi uma preocupação deste estudo, especialmente em relação ao atores hegemônicos. Por isso as variáveis privilegiadas são; localizações (condições do meio construído: infra estrutura, acesso valores) instrumento de trabalho (tipos, usos, valores, origem, reutilização), formas de organização empresarial e fiscal, emprego, matérias primas e produtos (preços, quantidade, lucro) transporte, publicidade, informação, finanças.
A eleição de um limite normativo que determine a formalidade e a informalidade das atividades pode levar a criar uma tipologia estéril no funcionamento da cidade como meio construído e como mercado. Capitalistas que possuem objetos técnicos relativamente modernos, uma organização eficiente e certamente, informação para evadir suas cargas tributárias são protagonistas centrais no processo de transformar os excedentes em lucros, ignorando suas responsabilidades sociais. Será que este conjunto de atores pode ser analisado como se suas ações fossem da mesma natureza e escala que as ações de pequenas empresas, inclusive de indivíduos cujos propósitos são reproduzir sua existência? Com baixo grau de capital, de tecnologia e de organização, sua rentabilidade pode estar no limite da sobrevivência e seu grau de informação muito por baixo da compreensão e da complexa e dinâmica estrutura tributária do poder publico.
O que realmente interessa e uma olhada que pode descobrir as manifestações do trabalho. O trabalho intensivo (sem horários, sem benefícios, sem pausas preestabelecidas) o que define o circuito inferior e hoje mais que nunca também o circuito superior marginal, em contraposição a escassez de capital e no complemento de um sistema normativo em vigência. Se vãos os empregos e fica o trabalho.
Por isso uma das manifestações da produção ilimitada de irracionalidade pode ser identificada no uso desigual e combinada das variáveis da época. Isso que define um período e sua constituição. O período esta determinado pelas possibilidades desse tempo histórico, pelo reconhecimento das variáveis da técnica e da política que caracterizam uma época e a diferença de épocas anteriores. Trata-se, hoje, de descobrir os elementos que participam do exercício das unicidades. Sem duvida sabemos que nem todos os agentes usufruem das mesmas oportunidades, que os usos dessas variáveis são diferentes, que as combinações de variáveis podem produzir comportamentos mais “racionais” ou mais “irracionais”. Essas diferenças são as temporalidades, os tempos dentro do tempo.
A cidade e uma e fragmentada. Isto hoje é mais verdadeiro que em períodos anteriores. A cidade não e somente o cenário, sim, sobretudo protagonista dessas unicidades e fragmentações, porque está constituída por uma nova base material e nova base política. A cidade atual nos fala do período, enquanto os circuitos nos falam das temporalidades, que dizer, da interpretação que atora e capaz de fazer sobre seu tempo e a forma que encontra de sobreviver. Aquele que é mais capaz de usar as variáveis modernas em seu trabalho, dialogar mais com os dados do período sem por isso deixar de ser vulnerável, forma parte de um circuito superior marginal (emergente).
O estado de São Paulo, onde o meio técnico cientifico informacional se difunde com menor resistência, pode abrigar um conjunto de atores capazes de se inserir na modernidade e seus mandos. Competitividade, eficiência exportação, mas há situação de venerabilidade. A dependência das trocas frenéticas de uso do território e das topologias nervosas das grandes corporações vincula esses atores com as racionalidades do período. Nesse contexto de situações, o circuito inferior nas metrópoles seria talvez, o mais capaz de produzir irracionalidades. Nesta grande metrópole esta o maior aconchego dessas formas de sobrevivência.
O papel do poder publico e diferenciado. Mas com freqüência, ainda quando pretende ajudar ao desenvolvimento de pequenas empresas, acaba sendo produtor de verticalidades, a vezes por sua política corporativa e outras por certa incapacidade de entender o funcionamento atual do mundo. A oferta de credito que implica ampliar a escala da produção de um pequeno empresário e em conseqüência arrolado nas acelerações do período (taxa de interesse, normalizações crescentes, etc.;) e a produção de normas publicas que buscam favorecer aos pequenos, mas cuja informação e comunicação são deficientes, são alguns dos obstáculos para uma política de novo conteúdo.
Faltam ao menos compreender o “existencialismo territorial” (SANTOS, 1999) que e a forma de sobrevivência da maior parte da população brasileira: pragmatismo, mas emoção na busca de soluções que são vistas como irracionalidades, como formas de atraso, como economia tradicional. Uma localização menos valorizada, mas que permite contar com um mercado contíguo ou evitar o pagar o aluguel porque funciona na própria casa, priorizar a venda de um produto a liquidez (outras moedas, como o vale transporte são adaptáveis), utilizar instrumentos de trabalho usado ou próprio de um sistema técnico anterior, trocar serviços ou produtos com são novos truques e bons exemplos dessa vida de relações. Toda uma produção se desenvolve ainda quando as variáveis determinantes deste período inventar usura e menos trabalho. A existência no, uma verdadeira base para a política.

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