quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TEXTO 05

Globalização e Circuitos da Economia Urbana em Cidades Brasileiras

Referência Bibliográfica:
SILVEIRA, Maria Laura. Globalização e circuitos da economia urbana em cidades brasileiras. Cuadernos Del Cendes. Caracas-Venezuela. Ano 21. Terceira época. Setembro-dezembro de 2004. ISSN: 1012-2508.

Obs.: Tradução livre realizada pela Profa. Virgínia Holanda, com objetivo de trabalho em sala de aula na Disciplina de Geografia Urbana.
Outubro de 2008.


Resumo:
Discutimos as relações entre o meio construído e a dinâmica urbana no período da globalização, enfocando os circuitos superior, inferior e superior marginal nas metrópoles brasileiras, especialmente em São Paulo. Áreas diferentemente equipadas por sua valorização seletiva, permitem a instalação de usos mais ou menos rentáveis, devido a força de um consumo que se aprofunda. O circuito superior pode ser identificado com as atividades modernas, geralmente vinculadas a exportação, enquanto o circuito inferior corresponde a formas de fabricação intensivas de trabalho e não modernas. O circuito superior marginal está constituído por formas mistas pertencentes tanto a atividades herdadas de divisões de trabalho pretéritas como formas de trabalho emergentes e inseridas nas atividades modernas.

A cidade como meio construído e como mercado
Neste trabalho apresentamos algumas idéias e resultados de um projeto e investigação cujo principal objetivo é a busca de uma compreensão mas sistemáticas das relações entre o espaço urbano e o movimento da sociedade, centrando atenção na segmentação da economia urbana no circuito superior, no circuito inferior e circuito superior marginal (SANTOS, 1975)
O ponto de partida e, sem duvida, considerar a cidade como um todo num permanente movimento. A cidade é uma totalidade, feita de coisas e pessoas, de objetos e relações, de formas e ações, num movimento desigual e combinado, em uma dinâmica de cooperação e conflito. A expansão acelerada de suas formas, materializada num processo de intenso de periferização que coloca os administradores frente ao problema de escala do acontecer, assim como reintera a hibridação de ações publicas e privadas numa política corporativa, menos visível, portanto onipresente como as novas morfologias, perturbam num difícil encontro de enfoques totalizadores. Frente a seu crescimento e multiplicação dos problemas. A totalidade urbana emerge, mas que antes, inesgotável, evitando tantas vezes o abandono gradual dos estudos globais sobre a cidade.
Se os retratos dificilmente podem ser exaustivos, a vocação totalizadora da teoria não pode faltar, pois a cidade não é somente uma soma das partes, nem somente um sistema de objetos, sim um conjunto de base material e da vida que a anima. Em outras palavras, a cidade será vista como um meio construído (uma determinada materialidade, quer dizer, pontos, linhas e manchas, contíguas ou não) e como um grande mercado (um conjunto de atividades realizadas em certo contexto e o setor da população associado por atividade e pelo consumo). Por isso podemos dizer que, na cidade, todas as atividades encontram seu lugar.
Se a consideração do meio construído como uma totalidade e uma premissa de método, e necessário abordar, ao mesmo tempo, os sistemas de ações ou em outros termos, ver a cidade como um conjunto solidário e contraditório, de divisões de trabalho. Suas funções mais modernas, aquelas que orientam sua inserção na atual divisão internacional do trabalho, não podem ser confundidas com a cidade em si mesma. Conjunto de todos os instrumentos de trabalho e de todas as formas de fazer, a cidade somente pode ser entendida se considerada a coexistência de divisões territoriais do trabalho. No somente os reinos das grandes corporações e dos grandes bancos, o reino do circuito superior, sim também o lugar do trabalho não especializado, das produções e serviços mias comuns, das ações vinculadas aos consumos populares-aquelas necessidades criadas neste tempo, mas cuja resposta nos e dada a todos pela economia hegemônica.
Daí a proposta de distinguir analiticamente, nessa totalidade, os circuitos da economia urbana. Enquanto o circuito superior está constituído por bancos, comercio, indústria e serviços modernos sempre orientados a exportação, o circuito inferior esta integrado por formas de fabricação que não são intensivas em capital, pelo comercio e serviços não modernos. O circuito superior marginal esta constituído por formas mistas, pertencentes tanto a herdadas de divisões de trabalho pretéritas como a formas de trabalho emergentes e incluídas nas atividades modernas. Não se trata, sem duvida, de atividades divorciadas, sim de um sistema de vasos comunicantes no quais todos os circuitos são resultados das modernizações e das respectivas transformações na divisão territorial do trabalho.
Na obstante, a compreensão da realidade total somente pode ser alcançada quando se considera como um período histórico determinado. Nos últimos 30 anos houve no Brasil uma importante modernização industrial, mas se pode admitir que o aumento da população empregada foi devido à profusão, nas metrópoles, de indústrias menos modernas, de escasso capital e cuja existência esteve vinculada a expansão do consumo tanto das classes media como dos pobres. Os estabelecimentos pequenos contratam cerca de dois milhões de pessoas no Brasil em 1980. O dobro da década anterior e duas vezes a quantidades de empregados das grandes empresas industriais. Portanto, de alguma maneira a pobreza tem sido uma trava a plena oligopolização da economia, permitindo que firmas menores subsistam naquelas porções da cidade mais desvalorizada.
Entretanto, a intensa urbanização, a reorganização do estado e da economia, a monetarização da economia e da sociedade que se vem completando, as agregações de ciência, técnica e informação na vida social e no território, e a diversificação e profusão dos consumos são dados novos do período, que alteram a natureza do espaço em que os circuitos da economia urbana se desenvolvem. Hoje, as metrópoles surgem como a sede de comandos vinculados a atividades modernas, mas ao mesmo tempo como o principal cenário de atividades de aglomeração-menos capazes de mobilidade espacial ou mais capazes de florescimento local. Associados ao circuito superior marginal e ao circuito inferior da economia urbana.
É importante o aumento das cidades milionárias e das grandes cidades medias (ao redor de meio milhão de habitantes) permite a diversificação e densificação da divisão do trabalho. Quanto maiores e mais populosas as cidades, mas capazes são de abrigar uma extensa gama de atividades e de conter uma lista maior de profissões (SANTOS E SILVEIRA, 2001), autorizando uma maior complexidade dos circuitos da economia urbana no período atual.
Esse mesmo processo de urbanização tem um papel relevante no mercado, que cresce e adquire espessura e segmentação. Nas grandes cidades brasileiras, o número de pobres é importante. Pois pela precariedade de seus recursos sua demanda e menos freqüente, seu numero, sempre crescente, traz certo efeito de compensação. As maiores cidades reduzem os custos de produção e circulação, mas isto é mais relevante para o circuito inferior e superior marginal.

A globalização, suas unicidades e os circuitos.
Frente às unicidades produtoras da globalização (SANTOS, 1996) – A cidade das técnicas, da informação e do dinheiro – as dinâmicas urbanas adquirem novos conteúdos. Hoje uma base material com vocação invasora distribui densidades e em áreas raras da cidade. Não obstante, o papel do consumo, fundado na publicidade e no credito (ainda mais quando uma boa parte dos objetos é descartável ou se move), amplia-se o uso dessa nova base técnica inclusive em áreas pouco modernas. Amparadas na convergência da informática e das telecomunicações e nas necessidades contemporâneas da produção e comunicação de idéias, imagens e dados em geral, os telefones celulares, computadores, equipamentos de fotografias e vídeo se tornam mais acessíveis às diversas classes sociais. Em 2000 havia 17,3 milhões de pessoas com computadores em casa, sendo que nas cidades da Região Concentrada (SANTOS Y TORRES RIBEIRO, 1979) as mais dotadas.
Em relação como os telefones celulares, sabemos que o serviço pré-pago se difundiu amplamente. Comprados com o propósito de aumentar a disponibilidade para as eventuais oportunidades de trabalho, sua densa presença mostra o papel do consumo entre os mais pobres e sua necessidade de comunicação, mas também a existência de uma rede fixa rara e sobre tudo um uso escasso pelo alto valor das tarifas de telefonia celular fixa. Assim, se as grandes corporações dominam a produção e a venda desses objetos, o resto da circulação permanece nas mãos de outros agentes. É o caso das reparações de alguns desses amparatos, assim como a revelação de fotografias e de aluguel de vídeos nas periferias. Por isso o funcionamento da base técnica depende também do circuito marginal e do circuito inferior, que são credores da economia, pois permitem a reutilização dos bens e a distribuição (muitas vezes sem interesse) para os grandes capitais. Desse modo, tanto pela expansão dos novos produtos, sempre transformados em instrumentos de trabalho das atividades não hegemônicas, como pela proliferação de atividades de reparação, os circuitos superior marginal e inferior participam, de forma crescente e às vezes contraditória, na produção da unicidade técnica.
Se os objetos vinculados às telecomunicações e a reparação de maquinas de base industrial amplia o universo do circuito superior marginal pela demanda de qualificação e de instrumentos específicos, a reparação de boa parte da atual base material e domestica fundada no consumo globalizado (como os eletrodomésticos e às vezes veículos) se refugia frequentemente no circuito inferior. Segundo estatísticas do (IBGE, 2003) em 2001, de um total de 791.954 micros e pequenas empresas de prestação de serviços no país, 77,493 pertenciam à manutenção e reparação de veículos e objetos pessoais e domésticos. Ou seja, 9,78% .
Os ligados à ciência, a tecnologia, a medicina e áreas afins revelam uma das manifestações da unicidade técnica contemporânea. No caso da indústria farmacêutica. Altamente concentrada em corporações globais responsáveis pela maior parte das investigações cientificas, a fabricação de medicamentos revela, sem duvida, interstícios que são ocupados por empresas medias e pequenas. Trata-se, por exemplo, de campos menos baseados na química, como a produção fitoterapêuticos próprios e um circuito superior marginal.
Ainda com sua vocação para envolverem-se num sistema invasor, que despreza as solidariedades com objetos técnicos mais antigos, as técnicas contemporâneas possuem uma qualidade inexistente em períodos anteriores. São diviseis, flexíveis, dóceis (GAUDIN, 1978, 1999; SANTOS, 1996, 2000) porque permitem, por exemplo, que com alguns instrumentos e num pequeno local, fabricar um produto ou organizar um serviço que pode ser vendido. Por seu feito demandar inteligência e informações traz possibilidades de usos e escalas distintas. Essa é uma grande diferença desse sistema técnico do período industrial.
Por essa razão, a informação e a verdadeira energia que impregna a ação contemporânea. Mas e também produtora de unicidades. Certa informação de cunho globalizante, verticalmente produzida e difundida, aparece como sinônimo de tempo hegemônico do período, indutora de um pensamento único e de comportamentos normalizados. Essencial às divisões territoriais do trabalho particulares das corporações globais, a informação estratégica materializa os nexos extrovertidos do território brasileiro (CORDEIRO, 1993; CORREIA, 1996) e, podemos assegurar, e um sofisticado circuito superior, principalmente localizado na cidade de São Paulo. A formulação das bases técnicas, políticas e normativas, precisas e funcionais das exportações, privatizações e fiscalizações, e definidora do novo uso do território nacional, assim confiada a um restrito grupo de empresas mundiais e nacionais de consultoria (BERNARDES, 2001). Se o espaço de sua ação se confunde com o território nacional e com o mundo, a intensidade de suas demandas num espaço contíguo é débil. Não há uso intensivo da força de trabalho, nem de tecnologia, nem de informação do lugar, assim como não há dependência dos mercados contíguos. Diante das grandes aglomerações urbanas brasileiras a questão é: como sobrevive a maior parte da população sem trabalho cujo contexto não passa da escala da metrópole? Será que quem trabalha em atividades dependentes da contigüidade espacial não utiliza as variáveis do período atual? Ou há uma produção própria, por exemplo, de informação e publicidade? Que informação técnica e mercadológica está, então, na essência da ação da maioria da população urbana?
O consumo e ação e por isso está hoje impregnado de informação. Poucas são as atividades, empresas e lugares que parecem permanecer alheios, por exemplo, a um forte conhecimento da publicidade próprio de nosso tempo. O resultado desse ato de império e a existência de agencias pequenas e medias que participam da produção global de propagandas graças às formas e normas da terceirização, assim como de firmas criadoras de uma publicidade para o pequeno comercio e para alguns serviços. Assim, cartazes nas ruas, banners, e outro tipo de cartões, que podem ser rapidamente fabricados graças às virtualidades das técnicas contemporâneas, colonizam as áreas vizinhas atingidas com a atividade anunciada. No espaço da contigüidade, se observa uma interrelação com os circuitos da economia urbana.
No período atual, a imitação – une os pilares do funcionamento do circuito inferior – se faz sobre novas bases. A relevância que o negocio da moda adquire no momento atual, com a profusão de cursos básicos e superiores de confecção, com novidades na produção de materiais e tecidos crescentemente híbridos, com a proliferação de revistas e desfiles, com a expansão do credito e da propaganda, determina que esse consumo se expanda na sociedade e no território. Modistas, costureira.. Entre as classes mais pobres, tem ai uma possibilidade maior de exercer a imitação de consumo sofisticados.
É também o caso de moveis de decoração dos lugares. Esse mercado está em expansão, que não alcança somente as classes mais ricas da sociedade, atrai toda uma produção industrial e artesanal, que envolvem pólos específicos em cidades intermediárias e nas metrópoles, atividades de restauração de moveis antigos, feiras artesanais e reparações. Bairros e cidades adquirem uma marca de especialização produtiva na luz dessa demanda que nos dias atuais parece ser elástica.
De um modo geral, o espraiamento da cultura se converte também em um mercado em expansão. A distribuição de vídeos, a produção e venda de artesanatos, a gravação e distribuição de musica, as múltiplas formas de edição de livros, revistas e folhetos fazem mais esparsa a divisão do trabalho, permitem localizações mais flexíveis, demandam instrumentos de trabalho específicos. Atualmente há mais possibilidade de ser comprados e forma organizações modernas combinadas com relações amizade, parentesco e vizinhança. Estamos diante de profuso circuito superior marginal vinculado a cultura.
Finalmente, a unicidade do motor ou em outras palavras, a apropriação da mais valia por um pequeno numero de atores globais, fundada na nova base material e na possibilidade de dispor de informações num tempo real, a responsabilidade das acelerações do período. Aumenta vertiginosamente a velocidade de produção do dinheiro no estado puro porque aumenta o numero de mecanismos verticalizados capazes de extrair mais recursos de mais atividades, de mais pessoas, de mais lugares. A publicidade e o credito são estratégias eficientes nessa guerra por uma maior acumulação de capital. Como cada porção da cidade e avaliada em função de sua capacidade de reproduzir dinheiro, algumas valem tesouros disputados enquanto outras são desprezadas.
O abandono de instancias, setores e lugares são ocupados pelo circuito inferior, importante para completar o trabalho tão fortemente dividido na metrópole, pois o circuito superior não se preocupa por exercer esse papel. No Brasil dos 3,3 milhões de empregos do setor de serviços corresponde o micro e pequenas empresas, mais de 400.000 pertenciam a transportes e serviços auxiliares dos transportes (IBGE, 2003) 12,12%. O caso das diversas formas de distribuição de mercadorias, objetos, documentos e pequenos valores na grande cidade.
Não obstante, a expansão do credito parece não deixar de lado nenhuma parte do território de sua economia. A capacidade das redes financeiras resulta da coexistência de filias de grandes instituições financeiras como Panamericano, Crefisa, o Zogbi, de todo tipo de usura e da profusão de novos tipos de credito oferecidos por bancos públicos e privados. A rentabilidade dos bancos brasileiros, por exemplo, passou de 10,6% em 1994 e 15,7 % em 1988 d de 24,5% em 2002. Ao contrario da produção, que e seletiva nas eleições das localizações, as finanças se interessam direta e indiretamente pela totalidade do território que tem vida. E por isso que podemos afirmar que não se trata somente de uma variável determinante, sim também de uma variável dominante, responsável de uma drenagem que não se conhece limite.
Assim, o circuito inferior, caracterizado pelo seu baixo grau de capital fixo tecnológico, e obrigado a aumentar seu capital de giro por meio do credito, ainda mais quando muitos dos pequenos empresários trabalham como pessoa física. Quando os empréstimos bancários as empresas era de 25% anual, para as pessoas físicas era de 57% anual. A vulnerabilidade aumenta com a utilização do cheque especial, créditos pessoais ou cotas e, sobretudo, empréstimos pessoais às financeiras, pois os interesses alcançam valores extremamente altos (entre 50% e 160% anual). Como o numero de pessoas sem conta bancaria ou incapaz de dispor de necessárias garantias e significativo, o empréstimo pessoal concedido por instituições financeiras encontra um terreno fértil. Formas de verticalização de uma economia geradora de um circuito inferior que num período de globalização, conhece grande superlativos.
O circuito superior marginal não está a salvo dessa emboscadas. Os mecanismos leoninos de credito também alcançam as praticas desses atores. Por outro lado, o sistema de franquias, um conteúdo novo do período, parece enraizasse em alguns dessas atividades e assim, tornar mais complexo o reconhecimento desse circuito. Seu grau de organização é bastante alto, pois as formas e as normas da natureza e uso do capital e da tecnologia são prescritas pela firma matriz, a gestão cotidiana e os riscos são assumidos pelo empresário pequeno ou médio, que deve cumprir com os direitos e royaltes e, nessa complexa situação, encontrar sua modesta equação de lucro. Verificamos este feito em algumas entregas expressas e escolas de línguas. Trata-se de uma manifestação organizacional das mais atuais unicidades.

EXPRESSÃO REGIONAL DOS CIRCUITOS DA ECONOMIA URBANA
No período de globalização novas fontes de riqueza e de pobreza se multiplicam nas grandes cidades, às vezes busca se adaptar as demandas da economia mais modernas, adequando seu meio construído as respectivas exigências e racionalidades. Mas esse fenômeno alcança somente uma pequena parcela do espaço urbano. Inclusive porque os custos são muitos, enquanto o resto da cidade mostra uma grande variação de infra estrutura e valores. A criação da racionalidade e certamente, limitada (SANTOS, 1996).
O Brasil que se globaliza e ao mesmo tempo, um Brasil que se metropoliza e por isso a explosão do circuito inferior e concomitante a enorme expansão urbana, tantas vezes na base de um processo de urbanização sem industrialização. A crise econômica recorrente no período da globalização produz uma extensão da periferia pobre (ALMEIDA, 2000) e uma deteriorização do meio construído urbano já existente. (sobre todos os centros), que também se desvaloriza pela modernização de outras partes da cidade. Esse processo está sempre acompanhado por uma multiplicação de atividades de sobrevivência.
O crescimento do circuito superior marginal residual se dar pela incapacidade de modernizar-se no ritmo imposto pela época. Mas paralelo, a normalização, a relevância e precedência do trabalho intelectual, e o caráter cientifico das atividades e da expansão do consumo são pilares do crescimento de um circuito superior marginal emergente. Por isso, este circuito pode ser visto como um laboratório da substituição de uma divisão de trabalho por outra. A decadência e emergência de profissionais e empresas vinculadas às formas hegemônicas de fazer e mandar alcançam diretamente o circuito superior marginal, enquanto certos saberes se desvalorizam outros surgem.
Nas grandes metrópoles da Região Concentrada e especialmente em São Paulo, a cidade moderna, pivô central das geometrias das grandes empresas, ver ampliar seus fazeres e os horizontes das ações que abriga, pois se envolve também no lugar do encontro das topologias das corporações globais na América do sul. A necessidade de informação precisa de diversos tipos de dinheiro atribui novos papeis as metrópoles e consolida ainda baseada na segmentação sócio espacial, sua existência com um grande mercado.
Como a expansão do meio construído se acelera, as valorizações e desvalorizações dos pedaços da cidade são frenéticas, possibilitando a instalação, aqui ou ali, de atividades menos capazes de dar valor a seus produtos. A extrema variedade de capital- fixos e variáveis –assegura a existência de uma extrema variedade de trabalho. As estacionalidades relativas a cada atividade econômica se superpõem e desse modo, tendem a anular-se, oferecendo um mercado de trabalho permanente. Assim, a cidade grande se volta mais apta para abrigar um circuito inferior.
Não existe, por tanto, uma única área de mercado da cidade como pretende a teoria dos lugares centrais, cuja premissa de método e identificar o setor moderno com a economia urbana. As atividades de pequena escala, cujos atores são os mais pobres, tem relações privilegiadas com sua região. Nem se quer as cidades que reconstrói seu presente a imagem das variáveis hegemônicas está formada somente pelo setor moderno (CIRCUITO SUPERIOR), sim também por um circuito inferior, que não é um freio da modernização e sim seu resultado, e incluso, por um circuito superior marginal, nascido sobre tudo em função da relevância que adquire a circulação. Muitas vezes próximo ao circuito superior pela funcionalidade de seu trabalho, o circuito superior marginal se enlaça com o circuito inferior pelo comportamento de seus atores.
Ainda que as estatísticas não possam revelar fielmente a natureza e a magnitude do circuito inferior nem do circuito superior marginal, e importante dizer que em 2001 somente as micro e pequenas empresas de comercio e serviços (pouco mais de dois milhões de estabelecimentos) contratavam 7,3 milhões de pessoas (desse total ¾ eram empresas que contratavam ata 5 pessoas), quer dizer, cerca de um décimo da população ocupada no Brasil. O número de empresas vem crescendo, especialmente sua contribuição para criar empregos. Em 1998, 5,5 milhões de pessoas trabalhavam nessas firmas, o que significa que houve um aumento de mais de 32% entre 1998 e 2001 (IBGE, 2003). Pautadas no trabalho intensivo, muitas dessas firmas são familiares, mas seu denominador comum é o escasso capital. Segundo o mesmo estudo, e de 30% o custo dessas pequenas unidades empresariais que corresponde a gastos com pessoal e somente 4% aluguel e arrendamentos de maquinas, veículos e outros equipamentos. Sua adaptação e localização, edifícios e sistemas técnicos menos valorizados se reflete na composição de seus gastos.
Destinar uma proporção maior de rendimentos ao pagamento de mão de obra em lugar de aumentar e modernizar o capital fixo (sobre tudo localização e maquinarias) não deixa de ser no período atual, uma produção de irracionalidade. Uma boa localização, capaz de atrair grupos de população de maior poder aquisitivo, assim como a compra de equipamentos modernos, que dispensam mão de obra, seus gastos sociais e os eventuais conflitos, seriam certamente, formas de produção racional.
Essência das políticas do poder público e das grandes empresas, essa racionalidade se revela limitada, sobre tudo nas grandes metrópoles. Do norte ao sul do Brasil urbano, as maiores metrópoles São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Brasília – suportam índices de desemprego ao redor de 20% de população economicamente ativa (PEA) (Dieese, 2003). Sem duvida, qual a racionalidade de uma economia urbana que despreza, como em Salvador, cerca de 30% de sua PEÃ? O certo é que cada há menor numero de atividade e emprego relacionado com essa racionalidade hegemônica e isto é mais visível nas grandes cidades do Brasil.
Frente essa realidade, uma enorme parte da população deve encontrar uma atividade e um lugar dentro da cidade – que seja capaz de permitir sua sobrevivência. E uma economia de baixo pra cima (SANTOS, 1996; 2000) que parte do principio de que os mais pobres, os vencidos, os demais trabalhadores podem consumir os produtos e serviços oferecidos. E uma cooperação que se completa na contigüidade e por tanto não necessita ser fluida, nem competitiva. Essa cooperação pode assim ser lenta e por isso é vista como irracional.
Armazéns, mercearias, padarias, pescarias, frigoríficos, verdureiros, coexistem com as densas topologias dos grandes supermercados e dos modernos drugstore. Nesse comercio de contigüidade, a liquidez não é obstáculo, pois utilizam vários tipos de dinheiro e de credito (Ticket, vale-transportes, compra fiado, compra com caderneta). Completam o retrato os pequenos comércios de roupa, de bijuteria, de sapatos assim como cafeteiras, bares, pequenos restaurantes, pizzarias e sorveterias.
Entre as pequenas firmas, os serviços técnicos profissionais prestados as empresas representam 27,8% do total. Trata-se de serviços jurídicos, de contabilidade, auditoria, consultoria empresarial, serviços técnicos de engenharia e arquitetura, publicidade e propaganda. As atividades de informática também aumentam sua proporção. Juntos, aos serviços técnico-profissionais e as atividades de informática somam cerca de 125.000 empresas que contratam mais de 400.00 pessoas. (IBGE, 2003). Ainda que o capital fixo pode não ser muito significativo, a existência de um conhecimento cientifico e de uma rede de relações faz dessa atividades um circuito superior marginal.
Mas da metade do conjunto da micro e pequena empresa comerciais e de serviços se concentram na região sudeste e somando e sudeste com o sul a Região Concentrada, abriga cerca de 78% do total nacional. A alta urbanização desses estados ajuda a explicar esse retrato. Somente no estado de São Paulo as micros e pequenas empresas de comercio e serviços empregam mais de 2,2 milhões de pessoas. Na região Nordeste o total passa um pouco de um 1 milhão de pessoas, contratando com os modernos estados do centro-oeste, onde o circuito inferior parece ser mais débil (pouco mais de 500.000 pessoas são contratadas nas firmas desse tamanho.).
Quanto mais populosa e a cidade, maior e segmentado é seu mercado, apoiado em um vasto meio construído, mas bastante fragmentado enquanto seus valores, ainda que se trate de áreas modernas da região concentrada. Isto nos autoriza a falar de áreas de diversidade e áreas de especialização.
Nas áreas de diversidade, o trabalho se especializa e se divide em múltiplos circuitos espaciais da produção, cuja área de mercado é o bairro ou a cidade em virtude de sua condição não hegemônica. A circulação e determinante e por isso os circuitos diferentes se entrecruzam e criam um mercado (segmentado) que se nutre da diversidade de fabricação, de comercio e de serviços. São pontos e áreas densas da divisão do trabalho onde coexistem técnicas de diferentes momentos históricos. Os edifícios são quase manifestações mais claras das rugosidades que vem do passado, por sua idade e por suas condições. Neste reino do circuito inferior e também de um variado circuito superior marginal em áreas de grande circulação como o largo treze, o largo do pinheiros e o próprio centro antigo da cidade de São Paulo ou incluso, em áreas renovadas como o bairro Tatuapé. E também o caso de centros antigos como Rio de Janeiro e de Porto Alegre, assim como das áreas contíguas os terminais de ônibus em todas as grandes metrópoles brasileiras.
Ainda que a existência dessas áreas de diversidade não seja um fenômeno exclusivamente metropolitano, o volume da circulação nesses pontos, manhcas e líneas evidencia que se trata de grandes corpos urbanos. As áreas de especialização urbana, ao contrario tende a ser um dado do fenômeno metropolitano. Ali o trabalho se especializa e se divide dentro de um mesmo circuito espacial da produção, envolvendo diversas etapas e atores de diferente poder em complexos processos de cooperação e competência. Em uma cidade como Belém encontramos uma área especializada em comércios de máquinas e ferramentas para a exploração de madeira e para as embarcações do espesso sistema de movimento fluvial que preside. Em uma macro-metropole como São Paulo, se poderia mencionar várias áreas: a zona cerealista no centro, produtos eletrônicos na rua Santa Ifigênia, artigos de iluminação e material elétrico na avenida consolação, vestidos de noiva na rua São Caetano, confecções nos bairros Bom Retiro e Brás, entre outros. Ao menos a existência dessas economias de aglomeração da escala urbana nos fala de suas relações de produção e de mercado com a cidade, com a região, com o país. Sua especialização produtiva é causa e conseqüência da densificação do espaço de fluxo (mais transportes, mais comunicação, mais finanças) e por tanto, essas áreas são lugares de coexistência dos circuitos da economia urbana que sem duvida, podem terminar aumentando o valor da localização e do meio construído e com isso expulsar alguns atores.
Essa é uma das manifestações da aceleração contemporânea. Uma nova demografia empresarial se apresenta diante de nossos olhos. Natalidade, mortalidade, migrações de empresas são processos freqüentes e velozes. Se para as grandes corporações as fusões são comportamentos habituais nestes tempos, o fenômeno mais corrente para as firmas dos circuitos inferior e do circuito superior marginal são as altas taxas de mortalidade. Assim mesmo são altas as altas de natalidade e as vezes as taxas de mortalidade refletem nas migrações do ramo de localização.
Se a velocidade de acumulação de lucro não é rápida, como reza o mandamento da globalização, o dinamismo do circuito inferior e do circuito superior marginal não pode ser ignorado. E exatamente sua venerabilidade que exige dessa economia de baixo um importante dinamismo. Em 2000, as mais altas taxas de mortalidade se verificou nas empresas de serviços que contratam até 5 pessoas. 19% e nas firmas comerciais do mesmo tamanho 15,8%. Mas esse mesmo segmento e o que registra as mais altas taxas de natalidade 27,1% e 22,7% respectivamente. E uma tendência que se verifica nos últimos anos. Esses dados contrastam com o comportamento das firmas que contratam mais de 20 pessoas, cuja a taxa de natalidade foi de 6,6 para as atividades do comercio e de 9% para os serviços em 2000. Vemos assim como em cada divisão do territorial do trabalho vários interstícios são ocupados pelas pequenas empresas.

AS PORTAS DA MODERNA SÃO PAULO, JÁ NOS REVELA SUA OUTRA FACE.
Se as crises econômicas constituem um freio na renovação da maior parte do meio construído, o neoliberalismo, com a pretendida estabilidade monetária, parece haver desencadeado um processo acelerado de renovações urbanas pontuais, para certas áreas da cidade de São Paulo fluem, sem viscosidades, torrentes de dinheiros bajo da forma de empréstimos privados, internacionais e nacionais, com freqüência vinculada à esfera do poder publico. Vêem se os exemplos da construção de edifícios residenciais de classe media - cada vez mais longe do centro da cidade ou verticalizando áreas tradicionalmente baixas – de bairros cercados dentro ou fora da grande mancha urbana, ou a renovação do antigo centro urbano comandada pelo Banco de Boston.
Uma área tradicional central como a zona cerealista – nascida no abrigo do ferrocarril Santos-Jundiaí cuja localização e equipamento continuaram funcionando quando do sistema de movimento de cargas (arroz, batatas, cebola) foi convertido ao transporte automotivo – parece não resistir aos impactos do período atual. Sua virtual transferência fazia uma nova área de cruzamentos (vias Regis Bittencourt e Raposo Tavares) e uma ação política baseada em dados técnicos e organizacionais novos: as atuais áreas produtoras (Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Maranhão), têm um grau de acessibilidade e os problemas de transito de cargas, os novos equipamentos de comunicação (telefone, computador, fax, correio eletrônico) e a logística dos grandes supermercados (pedidos informações, terminais exclusivos, marcas próprias). Se nos projetos oficiais se mentem o uso, essa transferência significará que nem todos podem acompanhar os custos desse desenvolvimento.
Concretizados ou em vias de implantação, numerosos projetos parecem coincidir na busca de localizações periféricas, bem dotadas de infra-estrutura, próximas às autopistas de acesso a cidade que garantem o exercício de uma circulação mais fluida e especialmente onde a instalação dos atores seja mais seletiva. Como o novo centro empresarial da Avenida Berrine, essas localizações em zonas circundantes as autopistas parecem confirmar a adaptação de um modelo de urbanismo periférico de origem norte americana.
Essa produção permanente de escassez adquire sua expressão contemporânea na aplicação de receitas de cunho macroeconômico nas quais o capital e sempre mais abundante que o trabalho para os atores hegemônicos em detrimento da economia real do país e da cidade, na qual o trabalho e sempre mais abundante que o capital. Estado e empresas, tantas vezes cooperando ou em conflito, tem tido um papel determinante na produção do desemprego, num claro indicio da produção limitada de racionalidade.
Estruturalmente a cidade cria, ao mesmo tempo, riqueza e pobreza, abundancia e escassez. Vetores internos e externos tem o papel de acelerar ou desacelerar as necessárias e permanentes readaptações. Por isso, tanto na metrópole industrial como na metrópole informacional-financeira os circuitos da economia urbana se desenvolvem na forma de vasos comunicantes, pois sendo ambos o resultado da modernização, encontra hoje as condições de sua reprodução. Ainda mais, identificada com a chegada de um novo circuito marginal, orientado a codificar e decodificar os objetos e as normas necessárias ao novo momento do modo de produção. Nascem os escritórios e empresas, muitas vezes vinculadas às novas profissões, que prestam serviços às firmas hegemônicas ou ao poder publico. Em 1999 havia 3,7 milhões de pessoas no setor de serviços, o equivalente a 53% da PEÃ na região metropolitana de São Paulo (um incremento de 1,4 milhões de pessoas em relação a 1981).
Se a divisão social do trabalho que acompanha o mundo da informação e das finanças multiplica as profissões, diminui ao mesmo tempo o número de empregos. As formas técnicas e de regulação contemporânea satisfazem seu apetite com um numero menor de pessoas altamente qualificadas. O emprego tradicional da metrópole industrial se esfuma, por um lado, ao ritmo de novas acelerações normativas, como as formas temporais de contratação, a terceirização e a interiorização da indústria que sinônimo de modernização e de busca de novas densidades normativas e por outro lado, pelas novas ocupações na produção e adaptação das informações externas ao mercado brasileiro, pela criação de uma publicidade que produza os consumos e pela produção codificada de formas de fazer e regular, como se ver os instrumentos financeiros em vigência.
As reformas neoliberais, portadoras da racionalidade da época, foram responsáveis, pela diminuição do numero de empregos vinculados às atividades modernas nas empresas do setor publico. Automatização, reengenharia de processos, redução do chamado redução do estado, diminuição das vendas, entre outras, foram as razoes usadas para concretizar as demissões. Quando estas eram os chamados “retiros voluntários”, um novo elemento aparecia na economia urbana, pois as indenizações resultantes procuravam implantar as antigas, novas e renovadas funções da divisão do trabalho. A natureza volátil dos capitais da grande corporação e sua geometria mundial contrasta com a existência dos pequenos capitais das famílias no próprio meio construído urbano, empreendendo uma nova atividade econômica. A cidade São Caetano do Sul na Região Metropolitana de São Paulo e talvez um bom exemplo, a partir da instalação de negócios e empresas de serviços por parte dos antigos operários da indústria automotiva.
A concentração de pobres na cidade de São Paulo tem um efeito positivo sobre os volumes produzidos e comercializados. Cria-se um mercado que, apesar das demandas individuais limitadas, constituem pelo grande numero de família, um efeito ampliado. Graças aos custos de produção mais baixos para ampliar oferta e proximidade de insumos, mão de obra e clientes, surge um numero considerável de pequenas empresas e desse modo, ainda que a mortalidade das firmas pode ser alta, a demanda constante possibilita que outras possam nascer.
Na própria garagem da casa pode funcionar o escritório das pequenas empresas de fretes e mudanças. O caminhão ou a camioneta própria e ao menos um fator que define a capacidade de trabalho mensal. Variando entre 7 e cerca de 40 mudanças por mês, as empresas contratam alguns ajudantes para realizar um trabalho que geralmente e no mesmo bairro ou em bairros contíguos. Localizações em áreas residenciais, como Butantã ou Pinheiros, são privilegiados por oferecer permanentes possibilidades de trabalho. Pequenos cartazes fixados em postes e muros de bairros e um telefone, às vezes celular, são os instrumentos indispensáveis para assegurar a demanda. Paralelamente se criam solidariedades econômicas com os coletores-vendedores de caixas de papelões.
A contigüidade e um dado central também para um bom numero de costureira e modistas entrevistadas que, dedicada a essa atividade por falta de emprego, trabalha em casa com uma ou duas maquinas domesticas, frequentemente compradas de segunda mão. Vivendo em bairros como Santo Amaro, Itaim Bibi, Brooklin, Jardim Bonfiglioli o Alto da Boa Vista, se deslocam ate Brás e Bom Retiro, áreas de especialização comercial, para comprar insumos. A quantidade de roupas configura um verdadeiro mercado, indicado entre clientes e conhecidos, já que a importância no setor têxtil e confecções têm afetado gravemente a produção da vestimenta sob medida.
Entre as numerosas situações do circuito superior marginal, os mensageiros se espalham pela cidade ao ritmo de uma intensa necessidade de cooperação e dos obstáculos à circulação. Mas que o grau de capitalização, e a capacidade organizativa que define as empresas. A agencia recebe os pedidos e ordena as viagens que são realizadas pelos trabalhadores com suas próprias motos. Para efetuar o transporte de documentos e pequenas mercadorias para escritórios e empresas das imediações, numa media de 200 viagens por mês, o pessoal contratado e pago por hora de trabalho.
O desenvolvimento das técnicas de informática também tem permitido a instalação das chamadas expressa que em pequenos locais, podem oferecer uma boa variedade de produto: cartões, folhetos, entre outros. Os equipamentos de trabalho são computadores (cujo numero varia de 3 a 20 nos casos dos entrevistados), scanner e soffwares específicos (como o corel). Algumas empresas compram equipamentos usados. Sua localização são em áreas valorizadas como um shopping-center com aluguel que passam de 2.000 reais, ou em áreas, mas deterioradas, como áreas de passagens e praças de grande circulação de pessoas, permite ganhar um mercado de empresas e famílias. Observamos ademais, que existe uma divisão de trabalho e uma cooperação entre as imprensas tradicionais, de localização mais periférica e orientadas a produção de grandes volumes e as empresas expressas. Com freqüência estas ultimas são responsáveis de trabalho menor, enquanto as indústrias tradicionais se encarregam, graças a seus equipamentos das grandes tiradas (impressão off set). Quanto a imprensa de maior tamanho, seu mercado está constituído por empresas e abarca amplas regiões, quando firma e pequena, seu mercado está dado pelas famílias num bairro ou na cidade. As demandas de cartões, material promocional e impressão de trabalhos, todas agregam outros serviços como fotocópias, encadernação, plastificação e serviço de fax. A publicação, vista como um suporte indispensável da produção acaba configurando-se como um nicho de mercado para essas firmas. Sua atividade se encontra bastante “financeirizada” compras de equipamentos com leasing bancário, transações diárias com bancos privados -, mas paralelamente alguns usan ticket como moeda, várias delas são franquias.
A divisibilidade das técnicas atuais tem permitido, também, uma certa disseminação do trabalho de produção musical. A convergência das técnicas de informática e de musica ampliou a quantidade de possibilidades de criação e de divulgação. A esse contribuem também as novas ou renovadas formas organizacionais como a terceirização do aluguel dos estúdios por hora de trabalho. Neste caso os pequenos estúdios de ensaio e gravação investigados na cidade São Paulo, que contam entre seus instrumentos de trabalho, geralmente comprados usados, computadores, softwares (como el sound Ford e el protus) para digitalizar as musicas, mesas de som, microfones, cabos, instrumentos musicais, amplificador e retorno, entre outros. Os computadores são também utilizados para produzir a própria propaganda (folhetos que serão distribuídos em comércios de instrumentos musicais e casas de espetáculos) , assim como para obter informações sobre técnicas, mercados, incentivos e oportunidades de negócios através da internet. O resto da informação e da propaganda provém de revistas especializadas e de intercambio de informações boca a boca, nos ambientes musicais. Os estúdios funcionam em antigas residências preparadas para tal fim, ainda que às vezes se instalem nos fundos da própria casa e menos frequentemente, são locais alugados. Nestes casos, os valores oscilam entre 200 e 1000 reais. Não formam uma área especializada da cidade, estão dispersas em áreas residenciais e bem localizadas da capital. Contratam um ou dois auxiliares técnicos para os ensaios e gravações, mas esse número pode aumentar no caso dos estúdios que funcionam 24 horas. O uso dos instrumentos financeiros por parte das pequenas firmas se confunde com o uso de seus produtos por parte de seu proprietário. (cheques, cartões, depósitos emitidos ou recebidos como pessoa física e não jurídica). Conforme seu tamanho e sua sofisticação técnica contam entre seus clientes as classes medias e altas ou grupos mais pobres da população. sua margem de lucro oscila entre 45% e 60%.
A refuncionalização de casa em bairros como Pinheiros, Cerqueira César e Bela Vista para instalar uma atividade ligada à produção cultural se tornaram um fenômeno freqüente na cidade de São Paulo. Assim como os estúdios também mencionados nas pequenas e medias editoras de livros e revistas. Geralmente pagando aluguel que superam os 1000 ou 2000 reais, as editoras são dirigidas por pessoas com formação profissional técnica na área de contabilidade ou de nível universitário e enquanto as pequenas contratam de 3 a 6 empregados, as empresas medias empregam ao redor de 20. Todas as firmas entrevistadas estão registradas como pessoa jurídica e seus empregados possuem registros de trabalho, representando de 30% a 40% dos gastos.
Essas localizações foram escolhidas em função da acessibilidade e prováveis clientes e mão de obra, assim como pela oferta de serviços. A quantidade de instrumentos de trabalho é central para determinar sua força de mercado. Equipados com telefones fixos e celulares, maquina de fotocópias, computadores (que variam 3 a 40), impressoras e scanner, algumas possuem também maquinas fotográficas, filmadoras e outras tecnologias vinculadas a imagem. A virtualidade da informática torna possível o trabalho de edição, no qual se completa mais tarde com o trabalho material tercerizado numa empresa e em algum caso, com serviços de fotografia e reportagem. Vê-se aqui uma solidariedade entre atores do circuito superior marginal.
A multiplicação dos consumos e da divisão do trabalho possibilita a existência de um numero crescente de revistas generalizadas e especializadas, cuja comercialização não se reduz unicamente aos postos de diários e revistas e as livrarias, sim também se estende as vendas por assinatura. A produção de livros tem sido beneficiada por leis especificas de incentivo e por associações com editoras universitárias e agencias de financiamento de investigação e suas vendas se multiplicam pelo aumento do numero de feiras gerais e universitárias. A participação dos consumos religiosos e também um dado importante, se destaca o exemplo das editoras evangélicas.
A propaganda se faz através de folhetos produzidos na própria firma, na internet, outdoors e também nas agencias de publicidade. Com esses meios se tem acesso a um mercado que para algumas empresas chega a ser nacional. Todas as editoras entrevistadas trabalham com vários bancos e usam hoje mais serviços que no inicio de suas atividades. As firmas menores já utilizam o limite do cheque especial e o período de existência de interesse. Os empréstimos solicitados como pessoa jurídica se destinam a saldar dividas e a manter-se no mercado. Oferecem aos clientes diversos instrumentos para pagamento; cheque ao portador, e cheque de terceiros, cartão de crédito, dinheiro, boleto de deposito, débito automático... Existem relações horizontais entre empresas do mesmo ramo, principalmente para intercambio e atualização de informações.
Por outro lado, o aumento da demanda na oferta de cursos de diversa natureza, fundado na necessidade da qualificação profissional e às vezes num certo consumo cultural, e um dado a mais um período contemporâneo. Investigamos alguns cursos de informática, de línguas, de gastronomia e cursos preparatórios para exame de ingresso na universidade. No caso de ensino de idiomas, assistimos uma grande competência entre as escolas grandes e de menor tamanho. Aqui, a criação de uma demanda, por parte de uma agressiva propaganda do circuito superior, acaba por contribuir para o surgimento de pequenas e medias escolas de bairro, que se beneficiam da proximidade de seus potenciais alunos. Computadores e equipamentos de imagem e som são os principais instrumentos de trabalho, ademais os materiais escritos. Esses últimos são as verdadeiras verticalidades que amarram a pequena empresa a atores poderosos. E sobre tudo no caso de franquia, nas quais os royalties por uso do material escrito alcançam 20%. Contribuindo a aumentar a demanda própria do inicio de cada semestre, as pequenas campanhas distribuem panfletos nos bairros vizinhos, incluindo as empresas. E destas que provém a maior parte da demanda e ao menos são as que pagam os cursos. Não obstante, verificamos a existência da associação das escolas independentes de idiomas que busca, por meio de ações conjuntas como prêmios, aumentar sua participação na relação com os institutos associados as franquias das grandes escolas. A topologia das escolas de línguas adquire assim capilaridade.

A METRÓPOLE EXTENDIDA
A densidade da divisão territorial do trabalho no estado de São Paulo nos permitiria comparar ofertas desse espaço com as ofertas da grande metrópole. Suas densidades vias, inforvias e seu movimento, sua intensa organização e os graus de organização política no poder publico e as empresas são formas de cooperação que completam essa profunda divisão do trabalho. Assim, se a intensa especialização do trabalho na cidade atrai um circuito superior marginal emergente, com um crescente numero de pequenas e medias empresas modernas, a intensa cooperação mostra um numero significativo de empresas vinculadas ao diálogo entre essas instancias.
Neste contexto, nossa preocupação tem sido relacionar a vida dos circuitos inferior e superior marginal com as especializações territoriais produtivas nesse estado. Onde o meio técnico cientifico informacional se amplia e densifica. Apresentado como característica constitucional do espaço nacional e ao mesmo tempo como hipótese, no livro O BRASIL: território e sociedade no inicio do século XXI, o tema das especializações produtivas foi retomado a partir da perspectiva das pequenas e medias empresas que nascem e crescem nessa vida de relações assim recriada. E no circuito superior marginal emergente, capaz de florescer num pedaço do território onde a divisão interurbana e intra urbana do trabalho e significativa. Centramos nossa investigação no pólo de confecção de Americana, Santa Bárbara d’oeste, Nova Odessa e Sumaré, nas produções de calçados masculino, femininos e infantis de Franca, Jaú e Birigui respectivamente em objetos de ferro e cerâmica de Porto Ferreira, na produção de flores e frutas de Atibaia e na fabricação de moveis de Votuporanga e Mirassol. E neste ultimo caso, ademais de alguns mercados de exportação, detectamos o monopólio exercido por uma grande empresa como as casa Bahia com fabricantes locais. Em relação as indústria de calçado, ademais firmas cuja produção começa a ganhar mercados extra-regionais, nacionais e internacionais, identificamos uma profusão de fornecedores de pequenos insumos, assim como de serviços que são essenciais para completar o processo de produção e que constituem o circuito inferior e o circuito superior marginal.

QUESTÕES ABERTAS SOBRE O BRASIL URBANO E GLOBALIZADO
A indagação sobre o uso das variáveis determinantes do período e suas novas combinações foi uma preocupação deste estudo, especialmente em relação ao atores hegemônicos. Por isso as variáveis privilegiadas são; localizações (condições do meio construído: infra estrutura, acesso valores) instrumento de trabalho (tipos, usos, valores, origem, reutilização), formas de organização empresarial e fiscal, emprego, matérias primas e produtos (preços, quantidade, lucro) transporte, publicidade, informação, finanças.
A eleição de um limite normativo que determine a formalidade e a informalidade das atividades pode levar a criar uma tipologia estéril no funcionamento da cidade como meio construído e como mercado. Capitalistas que possuem objetos técnicos relativamente modernos, uma organização eficiente e certamente, informação para evadir suas cargas tributárias são protagonistas centrais no processo de transformar os excedentes em lucros, ignorando suas responsabilidades sociais. Será que este conjunto de atores pode ser analisado como se suas ações fossem da mesma natureza e escala que as ações de pequenas empresas, inclusive de indivíduos cujos propósitos são reproduzir sua existência? Com baixo grau de capital, de tecnologia e de organização, sua rentabilidade pode estar no limite da sobrevivência e seu grau de informação muito por baixo da compreensão e da complexa e dinâmica estrutura tributária do poder publico.
O que realmente interessa e uma olhada que pode descobrir as manifestações do trabalho. O trabalho intensivo (sem horários, sem benefícios, sem pausas preestabelecidas) o que define o circuito inferior e hoje mais que nunca também o circuito superior marginal, em contraposição a escassez de capital e no complemento de um sistema normativo em vigência. Se vãos os empregos e fica o trabalho.
Por isso uma das manifestações da produção ilimitada de irracionalidade pode ser identificada no uso desigual e combinada das variáveis da época. Isso que define um período e sua constituição. O período esta determinado pelas possibilidades desse tempo histórico, pelo reconhecimento das variáveis da técnica e da política que caracterizam uma época e a diferença de épocas anteriores. Trata-se, hoje, de descobrir os elementos que participam do exercício das unicidades. Sem duvida sabemos que nem todos os agentes usufruem das mesmas oportunidades, que os usos dessas variáveis são diferentes, que as combinações de variáveis podem produzir comportamentos mais “racionais” ou mais “irracionais”. Essas diferenças são as temporalidades, os tempos dentro do tempo.
A cidade e uma e fragmentada. Isto hoje é mais verdadeiro que em períodos anteriores. A cidade não e somente o cenário, sim, sobretudo protagonista dessas unicidades e fragmentações, porque está constituída por uma nova base material e nova base política. A cidade atual nos fala do período, enquanto os circuitos nos falam das temporalidades, que dizer, da interpretação que atora e capaz de fazer sobre seu tempo e a forma que encontra de sobreviver. Aquele que é mais capaz de usar as variáveis modernas em seu trabalho, dialogar mais com os dados do período sem por isso deixar de ser vulnerável, forma parte de um circuito superior marginal (emergente).
O estado de São Paulo, onde o meio técnico cientifico informacional se difunde com menor resistência, pode abrigar um conjunto de atores capazes de se inserir na modernidade e seus mandos. Competitividade, eficiência exportação, mas há situação de venerabilidade. A dependência das trocas frenéticas de uso do território e das topologias nervosas das grandes corporações vincula esses atores com as racionalidades do período. Nesse contexto de situações, o circuito inferior nas metrópoles seria talvez, o mais capaz de produzir irracionalidades. Nesta grande metrópole esta o maior aconchego dessas formas de sobrevivência.
O papel do poder publico e diferenciado. Mas com freqüência, ainda quando pretende ajudar ao desenvolvimento de pequenas empresas, acaba sendo produtor de verticalidades, a vezes por sua política corporativa e outras por certa incapacidade de entender o funcionamento atual do mundo. A oferta de credito que implica ampliar a escala da produção de um pequeno empresário e em conseqüência arrolado nas acelerações do período (taxa de interesse, normalizações crescentes, etc.;) e a produção de normas publicas que buscam favorecer aos pequenos, mas cuja informação e comunicação são deficientes, são alguns dos obstáculos para uma política de novo conteúdo.
Faltam ao menos compreender o “existencialismo territorial” (SANTOS, 1999) que e a forma de sobrevivência da maior parte da população brasileira: pragmatismo, mas emoção na busca de soluções que são vistas como irracionalidades, como formas de atraso, como economia tradicional. Uma localização menos valorizada, mas que permite contar com um mercado contíguo ou evitar o pagar o aluguel porque funciona na própria casa, priorizar a venda de um produto a liquidez (outras moedas, como o vale transporte são adaptáveis), utilizar instrumentos de trabalho usado ou próprio de um sistema técnico anterior, trocar serviços ou produtos com são novos truques e bons exemplos dessa vida de relações. Toda uma produção se desenvolve ainda quando as variáveis determinantes deste período inventar usura e menos trabalho. A existência no, uma verdadeira base para a política.

TEXTO 04

TEXTO 04: Rede urbana e cidades médias no Brasil: abordagens clássicas, abordagens contemporâneas
Fabio Betioli Contel

Pra pensar no tema da dinâmica territorial brasileira, podemos retomar o conceito de “rede urbana”, tão caro a evolução da geografia humana no século XX. Resgatar o debate proposto por alguns autores importantes pode permitir estabelecer uma visão contemporânea do que seria esse conceito de rede urbana, para iluminar também a discussão das cidades médias, que recentemente ganhou fôlego na geografia.
Podemos elencar dois principais autores que estão na gênese da discussão da rede urbana: o primeiro é Walter Christaller, geógrafo alemão que escreveu em 1933 um livro bastante importante, intitulado Die zentralen Orte in Süddeutschland (traduzido para o inglês em 1966, sob o título Central Places in Southern Germany). Ele sistematizou – já na década de trinta –, essa ideia de que todo o território possui um “princípio de organização”, que depende da oferta de bens e serviços por parte dos aglomerados urbanos. Aquelas cidades que abrigam bens e serviços “centrais” estão necessariamente em posições mais altas na hierarquia da rede urbana. Aqueles aglomerados (povoados, vilas, distritos) que oferecem apenas bens e serviços “dispersos” (que são em maior número), não podem ser considerados “lugares centrais”. Assim, todo território possui uma estrutura, dada por uma rede urbana hierarquicamente organizada.
E um segundo autor que merece ser lembrado, que começou a edificar essa idéia de rede urbana na geografia francesa é o Professor Michel Rochefort, que partiu de algumas das premissas de Christaller, incorporando elementos novos à teoria. Um dos principais textos de sua autoria, traduzido no Brasil, é o “Métodos de estudo das redes urbanas (Interesse da análise e do setor terciário da população ativa)”, publicado originalmente na França (em 1957), e no Brasil em 1961, no Boletim Geográfico (CNG/IBGE).
Obviamente que esta é uma seleção bastante limitada em relação à história do pensamento geográfico, que é tão rica; mas é também uma seleção que vai tentar destacar a contribuição destes dois autores que são centrais até hoje. Uma das manifestações da “atualidade relativa” de Christaller e Rochefort é atestada pelo documento produzido em 2007 produzido pelo IBGE, chamado Regiões de Influencia das cidades (REGIC). A própria estrutura de montagem da REGIC, é tributaria em grande parte desse legado deixado por Christaller e Rochefort.
Três elementos que estão na base da definição de que seria um “Lugar Central” por Christaller, são característicos do que entendemos hoje por “setor terciário”, isso é, atividades ligadas ao comércio, serviços e transportes, e todas as profissões e bens ligadas a estas atividades permitiriam caracterizar os “lugares centrais” de uma rede urbana. A freqüência com que consumimos bens ou serviços que são ou dispersamente ofertados ou centralizadamete ofertados (dependendo da regularidade do acesso que temos em relação à eles) vai definir a localização da oferta desses bens. Para tentar esclarecer melhor esta idéia, pode-se dizer que há certos tipos de consumo que realizamos cotidianamente; há certos tipos de consumo que fazemos uma, duas, três vezes num ano. Esse tipo de comércio mais freqüente, esse tipo de acesso a um serviço que necessitamos cotidianamente, são ofertados descentralizadamente no território. Assim, um pequeno aglomerado urbano, ou qualquer cidade pequena, oferta certos tipos de bens, serviços de consumo banal. Esses “bens de necessidade cotidiana” (como certos alimentos), são dispersamente ofertados em qualquer território. De outro lado, bens e serviços que são consumidos com freqüência muito menor, por uma pequena quantidade de agentes econômicos, são ofertados em poucos pontos do território.
Todos os bens de consumo duráveis, a princípio, poderiam ser considerados como bens de consumo menos freqüente, e assim seriam mais comumente encontrados em lugares centrais. Se pudéssemos eleger uma atividade típica de lugares centrais, certamente o chamado “comércio de atacado” seria um elemento definidor do grau de centralidade das cidades numa rede urbana (como notou há tempos Brian Berry). O raciocínio, neste sentido, é bastante simples: quanto maior a raridade dos serviços, profissões e bens ofertados, menor a freqüência de seu consumo, situação que obriga sua oferta centralizada. Então, Sobral certamente é uma cidade que, aqui na Região do Vale do Acaraú, oferta certos tipos de bens e serviços que não são ofertados pelas cidades menores locais; Sobral, destarte, pode ser considerada nessa região um “lugar central”.
Ainda segundo o raciocínio original de W. Christaller, todo serviço e todo bem oferecido possui “condições mínimas” para que seja ofertado, assim como possui um alcance geográfico definido; portanto, poderíamos dizer que possuem um “limite inferior” e um “limite superior”. O que seria este limite inferior? Seria uma quantidade mínima de consumo do bem ou serviço (num certo período de tempo), para que aquela atividade seja rentável o suficiente para ser oferecida naquele ponto do território. Para que um determinado profissional (ou determinado fixo geográfico pra prestação de serviços) se instale, é preciso essa quantidade mínima de consumo, que geralmente é calculado em termos anuais. Abaixo deste “limite inferior”, a atividade não se instala, e não é oferecida naquela localidade. O exemplo que traz Christaller – assim como Richard Preston (1992) – é o da prestação de serviços médicos. Para que um profissional deste se instale numa cidade ele precisa de um número “x” de consultas anuais, para que a renda que ele receba possibilite sua permanência, ou que permita uma vida relativamente confortável pra ele, naquela cidade. Se não houver essa quantidade mínima de consultas por ano, provavelmente o médico não vai se instalar na cidade. O mesmo raciocínio serviria, para uma atividade comercial qualquer, atividade de prestação de serviços qualquer. Sem esta demanda mínima, denominada “limite inferior”, não se torna viável a prestação daquele serviço, a instalação daquele fixo geográfico na cidade. Esta é, em linhas gerais, a idéia de “limite inferior” do bem ou serviço oferecido.
Além do limite inferior, existiria o “limite superior” do bem ou serviço, que é dado pela distância que o consumidor está disposto a percorrer para a aquisição do bem. O limite superior depende também da renda, do tempo disponível, e do “prazer” envolvido no deslocamento do usuário/consumidor (CHRISTALLER, [1933] 1966). Quando a distância entre o local de oferta do serviço e do usuário impedir o acesso ao serviço, estamos diante do “limite superior” daquele serviço. O “limite superior” torna inviável, principalmente do ponto de vista dos custos, o acesso ao serviço. Dito de outra forma: a partir do momento em que o deslocamento da pessoa gere um custo de transporte a tal ponto que inviabilize a compra (ou o acesso ao) do serviço, esse seria o “limite superior” daquele lugar central. É uma visão um pouco economicista e bastante simplificada de organização do território, mas que parece ter alguma aplicabilidade. Aglomerados urbanos além do “limite superior” do lugar central mais próximo poderiam se organizar de duas formas principais: 1. O aglomerado ficaria simplesmente sem acesso ao serviço; ou 2. A partir do momento em que cresce a demanda, que não é suprida por este lugar central mais próximo, esse bem ou serviço passa a ser paulatinamente ofertado por esse aglomerado (que ainda não é um lugar central).
Então, a partir dessa dinâmica também um pouco esquematizadamente trazida aqui (entre o “limite superior” e o “inferior” dos bens/serviços), seria configurada uma hierarquia de cidades, nas quais algumas vão ofertar serviços mais raros ou “centrais”, e outras oferecem apenas serviços mais banais ou “dispersos”. A idéia de centralidade de Walter Christaller se aproxima muito, neste sentido, da idéia de “raridade” de Michel Rochefort e Jean Labasse, que escreveram um importante texto intitulado “Équipements tertiaires supérieures et réseau urbain”, em 1965. As cidades locais não vão possuir grandes “especializações”, segundo Christaller. Podemos pensar que cada ator um tem um certo leque de necessidades, todos nós temos um certo leque de necessidades relativamente banais, e essas necessidades sim, são supridas em cidades menores, ou cidades locais.
Talvez fosse importante destacar uma última consideração sobre o livro clássico de Walther Christaller, que mostra sua importância também na história do pensamento Geográfico. Christaller, ao eleger o “mercado” como a instância social que organiza o território, permitiu uma mudança bastante importante do ponto de vista teórico na geografia. Com esta proposta, de considerar um ente mais “abstrato” como elemento de organização do espaço geográfico, ele fundou a “geografia teórica”, no ano de1933. Esta é a opinião de um dos fundadores da geografia crítica norte-americana, William Bunge (1966). Por que, segundo Bunge, Christaller teria fundado a “geografia teórica”? Pela ruptura epistemológica que ele propôs. A geografia que se fazia até então – tanto a geografia norte-americana, mas talvez principalmente a francesa – era bastante descritiva, empiricista. A “região” no sentido dado por Paul Vidal de La Blache foi o paradigma que dominou toda a geografia francesa, ao menos nas primeiras décadas do século XX. O critério pra definição da região era um critério bastante empírico, ligado principalmente a outros dois conceitos centrais do esquema teórico de La Blache: o “gênero de vida” e a “paisagem”. A homogeneidade paisagística, isto é, a semelhança revelada pelas técnicas, meios de vida e pela “imagem” disso tudo resultante, seria um dos critérios para a definição da região. Assim, a descrição da paisagem seria uma das principais funções do próprio métier da geografia (descrever desde a geologia, o sistema hidrográfico, até as funções industriais, comerciais, que cada região possuía), redundando numa geografia bastante empírica. Christaller, ao eleger o ‘mercado’ como princípio organizador das regiões, inclinou a geografia a pensar também conceitos e categorias mais abstratos, conceitos que não derivam da “experiência imediata”, que não são necessariamente visíveis, empíricos, portanto. Ao resultado do “limite superior” do alcance dos bens de um lugar central, Christaller deu nome de “Região complementar”. Assim, com o conceito de “Região complementar”, Christaller funda em 1933 o que seria a “geografia teórica”, daí também sua importância.
O que pode ser dito da contribuição de Michel Rochefort? Ele vai se inspirar bastante na obra de Walter Christaller, ao mesmo tempo em que procura superá-la. Rochefort vai também se atualizar em relação ao debate que se fazia na década de 50 e 60 na geografia francesa que paulatinamente foi introduzido o conceito de “rede” no conhecimento geográfico. Até então, a noção de “rede” no conhecimento geográfico era bastante empírica, e representava fenômenos materiais, também “empiricamente” discerníveis: a rede hidrográfica, a rede ferroviária, as redes de telecomunicação etc. O conceito de “rede urbana” proposto por Rochefort, em nosso entendimento, dá um caráter mais rico à noção de “rede” em geografia humana. O livro clássico do professor Pierre Monbeig ([1952] 1984) que trata do avanço das “frentes pioneiras” no estado de São Paulo, trabalha com ainda com a ideia de rede “lablachiana”; não se trata de uma consideração sobre um “ente” mais abstrato, de relações econômicas e sociais, ou processos ligados à uma circulação que não é apenas a circulação material de bens e pessoas. A “rede” de que trata Monbeig é esta “rede” empírica, como mencionado.
Os dois livros que re-significam o conceito de “rede” na geografia (trabalhando ela indissociada do fenômeno das cidades) são a obra clássica do próprio Michel Rochefort publicada em 1960 na França (L'organisation urbaine de l’Alsace) e a obra de Jean Labasse sobre o sistema bancário francês (Les capitaux et la région), de 1955. Labasse não se debruçou propriamente sobre a “rede urbana” francesa, mas sim sobre a rede bancária do país.
Quais seriam os principais elementos para entender o que é uma rede urbana, nos moldes em que nos fala Michel Rochefort? Em primeiro lugar, uma região seria definida a partir da estrutura montada pela rede urbana, com sede em uma cidade mais importante, ou uma “metrópole regional”, segundo Rochefort. Toda região, neste sentido, possui uma cidade que comanda os circuitos econômicos e políticos de seu entorno mais amplo. A região seria, portanto, um espaço “sub-nacional”, com um centro principal que o organiza, e que possui um conjunto de outras cidades em forte ligação funcional. Esta definição parece ser bem importante, pois permite operacionalizar este conceito que é bastante “polissêmico”. “Região” possui vários significados, e – feliz ou infelizmente – a geografia trabalha com palavras que servem a varias ciências sociais. “Região”, a julgarmos pelo que dizem os economistas, pode significar porções continentais inteiras, como é o caso do debate da “região” na economia internacional, das teorias do “regionalismo econômico” (BALASSA, [1961] 1972). É possível falar, para estes economistas, de “região da América do Sul”, de região “do Pacífico”, etc. A rigor, estas definições “externas” não são tão precisas, se levarmos em consideração estas propostas originais da geografia urbana e regional. Portanto, sem a definição da “região” a partir de um núcleo principal, e de um conjunto de cidades de menor porte, hierarquizadas – que também sistematicamente, apresentam relações funcionais (mais ou menos duráveis) –, ficaria impossível operacionalizarmos o conceito de região em geografia.
Outro conceito importante pensado por Rochefort, com um caráter mais “atemporal” (necessitando obviamente de constantes re-significações) é o conceito de “vida de relações”. Podemos dizer que toda cidade possui uma “vida de relações”, isto é, possuem “interações espaciais” (ULMANN, [1954] 1980) ou “solidariedades geográficas” (SANTOS, 1996) que as ligam umas às outras. Cada cidade apresenta então essa “vida de relações”, que se constitui fundamentalmente de fluxos materiais e fluxos imateriais, a partir do comando da cidade em relação a esses fluxos. Ao analisar o significado destes fluxos (A quem servem? Quais seus ritmos? Qual sua natureza social e econômica?) é que poderíamos inserir as cidades num “sistema de cidades”, de caráter mais ou menos “regional”, identificando sua “coerência funcional”. A partir da análise do fluxo de pessoas, fluxo de mercadorias (insumos ou produtos), e fluxos também de bens informacionais (ou “imateriais”, como ligações telefônicas, internet, dados, sons, imagens), sua quantificação e qualificação, poderíamos definir a “vida de relações” das cidades, e pensar as cidades no conjunto sistêmico que é a região, na qual ela está inserida.
Uma última definição importante de Michel Rochefort, de caráter mais operacional, é o “método indireto” proposto pelo autor, que permitiu trabalhar empiricamente com seu quadro conceitual sobre redes urbanas, possibilitando uma série de estudos sobre a vida de relações das cidades francesas. O que seria este método indireto?
O autor chamava a atenção para o fato de não ser possível analisarmos uma determinada rede urbana a partir de todas suas manifestações empíricas. Pela própria escala da empreitada, é impossível qualificar, classificar e quantificar todos os fluxos e todos os fixos que existem numa determinada região; assim como é inviável, na análise de uma estrutura urbana, identificar todos os insumos que chegam numa indústria, todos os produtos que saem desse complexo industrial. Como é possível proceder a uma análise geográfica, sem correr o risco de perder a coerência da vida regional? É preciso utilizar “métodos indiretos”, isto é, identificar na realidade concreta dos fluxos e dos atores envolvidos quais são aqueles mais representativos do fenômeno da rede urbana; nas palavras de Rochefort, tratar-se-ia de “utilizar os fatores que são a causa ou o resultado dos traços característicos da referida rede” (ROCHEFORT, [1957] 1961, p.4), e não os fenômenos propriamente ditos. O “setor terciário”, neste sentido, seria a parcela da realidade mais apropriada para definir estas “causas” e “resultados” dos processos que constituem uma rede urbana. Para aprofundar sua análise, dentro do fenômeno mais geral do “setor terciário”, deveriam ser analisadas três principais variáveis: 1. A “estrutura profissional” das cidades, isto é, a composição da ‘população ativa’, em termos de sua divisão social do trabalho; 2. A “organização dos transportes” (que poderia ser considerada como a “causa parcial da organização dos centros”); e 3. A “repartição da rede telefônica” (que, por seu turno seria a “conseqüência dessa ‘centralidade” (ROCHEFORT, op. cit., p. 4).
A partir deste “método indireto” seria possível estabelecer análises geográficas concretas, sem o dispêndio de tempo, dinheiro, e demais recursos que uma pesquisa “censitária” exigiria. Se pensarmos no contexto nacional brasileiro, é possível imaginar as dificuldades envolvidas para se estabelecer uma análise também empírica da totalidade da rede urbana nacional. Neste sentido, a utilização de métodos indiretos permite um retrato fidedigno dessa vida de relações das cidades, através de dados como as “freqüências” dos serviços de transporte, a quantidade de linhas regulares disponíveis, os montantes de cargas de passageiros transportados etc. Isso indicaria, indiretamente, a força da cidade naquele determinado contexto regional; o mesmo raciocínio serviria para as ligações telefônicas, com a distinção de que estas variáveis permitiriam uma aproximação da vida de relações da cidade do seu ponto de vista “imaterial”. Ainda que todo conhecimento seja datado, e que a realidade (em menor ou maior velocidade) caduca os esquemas teóricos, pareceu-nos importante retomar as idéias destes dois principais autores, que estabeleceram alguns parâmetros mínimos para a análise das redes urbanas, nas primeiras décadas do século passado.
Outro autor que nos ajuda a entender o debate das “redes urbanas” é o professor Milton Santos, que em 1975 escreveu um livro bastante importante, que o tornou conhecido (não só nacionalmente como internacionalmente), a obra “O Espaço Dividido” (SANTOS, [1975] 1979). Neste livro, Milton Santos propõe que as redes urbanas nos países de terceiro mundo são redes “curto-circuitadas”, e não se formam nestes países as hierarquias “equilibradas”, como ocorrem nos países centrais. Não se formam estas hierarquias, em primeiro lugar, pela própria inserção subordinada dos países periféricos na divisão internacional do trabalho. As redes urbanas nas nações pobres são sempre “extravertidas”, e de estrutura radicular: unem as áreas do interior do território à grandes cidades portuárias, com a função primeira de drenar as riquezas nacionais para os centros de consumo metropolitanos. Isso já torna, do ponto de vista genético, as redes urbanas “do sul do Equador” menos afeitas ao desenvolvimento endógeno destes países. Além deste fator “genético”, também a chegada da modernização tecnológica “abrupta” no pós-Segunda Guerra vai gerar os já referidos “curto-circuitos” nas redes; o que vêm a ser estes “curto-circuitos”? A vida de relações das cidades, antes da modernização técnico-científica, permitia uma hierarquização com um “relativo equilíbrio”: cidades menores se comunicam com as cidades médias em seu entorno próximo, que se comunicam com as cidades maiores, permitindo uma distribuição menos seletiva de toda sorte de equipamentos urbanos (públicos e privados). A modernização, alterando principalmente os sistemas de engenharia voltados aos transportes, permite o “diálogo de cidades” (pra usar a expressão de Fernand Braudel) de pequeno porte com cidades grandes e/ou metrópoles, prescindindo dos contatos mais comuns com as cidades médias, mais próximas. Esta é, em linhas gerais, a idéia da “rede urbana curto-circuitada”. Nos países subdesenvolvidos há certos processos importantes que decorrem desse “curto-circuito”, como é o caso da importância das cidades litorâneas (portuárias), assim como da “macrocefalia urbana” de certos centros da rede. Algumas cidades acabam centralizando com maior força a prestação de serviços, o comércio, as atividades e profissões “raras”, que numa rede urbana mais “equilibrada” seriam escalonadamente distribuídos. Essa macrocefalia é um dado de países de terceiro mundo que conheceram esse curto-circuito na sua rede urbana. Vale lembrar também que a idéia de “curto-circuito” se aproxima bastante da noção mais recente de “efeito-túnel”, do urbanista francês François Ascher (1995). Ascher, ao estudar as redes de transporte entre as principais cidades européias, mostra que algumas cidades não são servidas por certos modais mais rápidos (transporte aéreo e trens de alta velocidade, principalmente), renegando algumas cidades a participação na vida de relações mais acelerada da globalização. Assim, as dinâmicas produtivas e a oferta de serviços especializados passam a ser mais centralizadamente instalados, em função dessa desigual distribuição das redes de transportes contemporâneas.
Uma obra recente, que também nos ajuda a pensar na rede urbana brasileira atual, e que num certo sentido trabalha com a idéia de “centralidade” de Christaller, foi o já citado documento produzido pelo IBGE em 2007/2008 (“Regiões de Influência das Cidades”, a REGIC). Neste imenso esforço de pesquisa, os geógrafos do IBGE procuraram entender e definir o funcionamento das variáveis que poderiam ser importantes pra pensarmos a “centralidade” geográfica das cidades, em moldes atuais. Que dados do período da globalização podem ser interessantes, para serem definidas as “centralidades” de um aglomerado urbano? Quais são as novidades do atual período histórico (pensando na geografia humana como uma ciência social, que deve sempre estar atenta à identificação das principais variáveis do período contemporâneo)? Quais seriam, neste sentido, os principais atores, e dentre eles, quais autores são “hegemônicos”, quais autores são “hegemonizados” no funcionamento de nossa rede urbana?
Algumas variáveis elencadas pelo estudo mostram esta centralidade. Identificar ligações aéreas, por exemplo, na geografia dos transportes, permite estabelecer parâmetros de fluxos eminentemente “hegemônicos”, já que quem se utiliza desse tipo de sistema de movimento, são primordialmente as grandes empresas e seus gerentes, executivos e/ou administradores (seus “white collars”, pra lembrar a expressão do sociólogo Whrigt Mills). Os usuários do sistema de movimento aeroviário são também membros da elite dos circuitos públicos do poder (sejam políticos, administradores de autarquias públicas, funcionários ‘graduados’ etc). Enfim, fluxos de transporte aéreo são fluxos de comando do território, e as cidades que apresentam “interações espaciais” mais expressivas deste tipo de fenômeno podem se credenciar como cidades mais “centrais” na rede urbana nacional.
Outra variável empírica bastante operacional para se entender a centralidade de uma cidade na rede urbana da qual faz parte são os “serviços médicos”. A utilização primeira desta variável também se deu no estudo de Christaller, e foi retomado por Rochefort (no seu já citado texto com Jean Labasse). Os serviços médicos, principalmente os de “maior complexidade” apresentam uma “raridade” que permite caracterizar bem a centralidade das cidades. Geralmente, estes serviços raros (ligados à especialidades da medicina como a “medicina diagnóstica”, a oncologia, a neurocirurgia etc.) aumentam a influência da cidade na rede urbana do país em que se encontram. A inexistência de serviços de “menor complexidade”, por sua vez, pode ser também um critério eficaz para identificar áreas pouco (ou nada) servidas deste tipo de atividade. Esta identificação pode ajudar a distribuir melhor – dentro e entre as cidades – , os fixos geográficos ligados ao atendimento médico da população. Através da análise da rede urbana nesses moldes, é perfeitamente possível democratizar, universalizar, certos tipos de políticas públicas, que são mais freqüentemente utilizadas, e que deveriam ter uma oferta mais dispersa no território nacional. Quando estes serviços têm sua lógica determinada pelas corporações privadas, o desequilíbrio de sua distribuição é ainda mais perverso.
Entre outros elementos que poderiam ser citados, também como indicadores para a definição da hierarquia de cidades em nosso território, podemos lembrar: existência de emissoras de televisão, ou de retransmissoras de conteúdos de cadeias nacionais; instituições de ensino superior (universidades, centro universitários, faculdades); atividades comerciais, indo dos mais “centrais” (comércio de atacado, hipermercados) até os mais “banais” (mercados, pequenos estabelecimentos comerciais), desde sempre podem ser considerados indicadores importantes. Serviços bancários, da mesma forma, podem ser indicadores fiéis desta centralidade no período contemporâneo. Vale ressaltar que recentemente houve uma verdadeira “revolução” na rede urbana brasileira, no que diz respeito à prestação de serviços bancários. Não tanto pela mudança no comando da atividade (que se dá pela primazia da Região Metropolitana de São Paulo), mas sim pelo aumento da capilaridade dos fixos geográficos voltados à “creditização do território” (SANTOS, 1993). Apesar de der diminuído o número de agências bancárias logo após o Plano Real (1994), os bancos nacionais e internacionais otimizaram suas redes de prestação de serviços, com a utilização de outros sistemas técnicos, como por exemplo: terminais de auto-atendimento, caixas eletrônicos, redes de cartão de crédito/débito, e principalmente através dos Correspondentes Bancários (CONTEL, 2007). Outra mudança expressiva da rede urbana e bancária, em termos de comando, se deve à privatização de quase todos os bancos públicos estaduais. Assim, os estados da federação brasileira alteraram a sua hierarquia em termos serviços bancários, recentemente. Por fim, os “domínios de internet” são também uma variável empírica bastante interessante, utilizado pelo documento do IBGE (a REGIC), e que permite também uma operacionalização – em moldes mais atualizados – da centralidade dos lugares. Esses elementos todos citados é que credenciam (ou não) certos lugares como “motores” da rede urbana.
Bastante próximo ao debate das redes urbanas atuais está a discussão sobre as cidades médias no Brasil. Ainda que o tema das cidades médias tenha sido já tratado na década de 1970 pela Professora Maria Adélia de Souza (em parte em SOUZA e FRANCISCONI, 1976), veio a tona novamente através de trabalhos coordenados pela Professora Maria Encarnação Beltrão Spósito (2007). Nas publicações sob coordenação da Professora Maria Encarnação, vários estudos sérios sobre o tema foram apresentados. Uma das primeiras características deste debate é a própria dificuldade envolvida na definição do que é uma “cidade média”. Para certos geógrafos (como é o caso da própria professora Maria Adélia de Souza), sequer é possível utilizar este conceito atualmente, dada sua natureza eminentemente formal.
Porém, a obra de um dos principais geógrafos brasileiros em atividade, o Professor Roberto Lobato Correia, permite uma reflexão crítica e ao mesmo tempo rigorosa do fenômeno das cidades médias. Para o Professor Lobato (2007), quais seriam as dificuldades envolvidas nesse debate das cidades médias? Em primeiro lugar o “tamanho demográfico” como critério. É muito difícil você eleger apenas o “tamanho” das cidades como definidor do que é uma “cidade média”; em certas regiões (ou “redes urbanas regionais”), aglomerações com cinqüenta a duzentos e cinqüenta mil habitantes, poderiam ser consideradas como “cidades médias”; uma cidade com cem mil habitantes próxima à cidade de Campinas (ou próxima à cidade de São Paulo), certamente não poderia ser considerada uma cidade média, pois sua vida de relações estará eclipsada por estas duas cidades maiores supracitadas. Ela provavelmente vai ser uma cidade com menor centralidade, ou – no caso limite – uma cidade que tem funções ligadas a residência de uma população que trabalha nestes centros urbanos maiores (uma “cidade-dormitório”, como parece ser o caso de Carapicuíba, na Regiáo Metropolitana de São Paulo) (ARANHA, 2005). Assim, cidades com expressivos contingentes populacionais próximas à Regiões Metropolitanas não poderiam ser consideradas “cidades médias”, neste raciocínio. Para retomar o termo original de Christaller, estas cidades não teriam “centralidade”, ou – para usar termos mais atuais – não abrigariam “funções de comando da economia”, ou abrigariam poucas “funções centrais” em sua rede urbana. Destarte, o tamanho demográfico pode ajudar na definição, mas apenas como um primeiro indicador, sem nenhuma capacidade de definir o fenômeno por si só.
Ainda em relação à crítica da utilização de critérios formais para o entendimento das cidades, podemos lembrar do raciocínio estabelecido pelo Professor Milton Santos em seu livro “O Espaço dividido” (SANTOS, [1975] 1979). Para o autor, uma primeira consideração a respeito destas cidades que têm tamanhos “médios” nos países pobres, é que elas seriam propriamente “cidades intermediárias” (SANTOS, op. cit.), e não “médias”. Porque “cidades intermediárias”? Fundamentalmente, porque elas não têm o comando sobre os circuitos econômicos dos quais fazem parte. São apenas “pontos de contato” (“cidades-relais”) de redes produtivas/comerciais que se utilizam de seu poder de consumo local. As empresas que atuam nestas cidades são geralmente filiais de grandes empresas, suas sedes (headquarters) não se encontram nestas cidades, e daí a idéia de “intermediária”. Essa qualificação, segundo o raciocínio do professor Milton, ilumina a realidade relacional da cidade; a cidade como um relais, como um ponto intermediário numa determinada rede urbana, num determinado contexto regional, que cumpre funções menos importantes, e que abrigam serviços menos raros, no seu contexto regional. Assim, são os limites da “vida de relações” das cidades que vão defini-la como sendo uma “cidade intermediária”; as cidades de porte médio têm cada vez menos comando sobre as atividades que nela se desenvolvem.
Na rede urbana brasileira atual, podemos destacar quatro elementos que fundam o dinamismo desta “vida de relações”. Em primeiro lugar, há uma diminuição do dinamismo das principais metrópoles do país, a saber, São Paulo e Rio de Janeiro (SANTOS, 1993; SPÓSITO, ELIAS, SOARES, MAIA e GOMES, 2007). Tanto em termos de seu crescimento populacional, quanto em termos de sua “polarização industrial”. Apesar de crescerem, crescem num ritmo muito menos acelerado daquele das décadas de 1960 e 1970 (principalmente). Uma segunda característica principal da rede urbana brasileira é o crescimento de suas “metrópoles regionais”, principalmente as capitais de estados do Nordeste, do Norte e do Centro Oeste. Estas cidades conhecem um crescimento relativo maior do que essa metropolização “originária” no Sudeste do país. Um terceiro dinamismo novo advém do crescimento expressivo do que seriam as “cidades médias” no Brasil (SPÓSITO et alli, 2007). Parafraseando um trabalho recente de Georges Benko e Alain Lipietz, as “cidades médias” foram as “cidades ganhadoras” na dinâmica recente da rede urbana brasileira. Principalmente no que diz respeito à industrialização nas cidades médias, mas também em relação à prestação de certos tipos de serviços. E, por fim, um quarto principal elemento do que seria a base dessa dinâmica da rede urbana atual é a diminuição da importância relativa das cidades locais (ENDLICH e ROCHA, 2009).
Por que as “cidades médias” são tão importantes hoje, para a organização do território brasileiro? Em primeiro lugar, por um critério eminentemente quantitativo, pode-se dizer que elas ganham maior peso demográfico na rede urbana nacional, são elas que mais crescem (SPÓSITO et alli, 2007). Em segundo lugar, pode-se dizer que as cidades médias têm maior dinamismo pois elas apresentam uma série de “economias externas” importantes para atividades produtivas, o que as torna bastante interessantes para certos tipos de capitais. As metrópoles – que eram áreas urbanas que quase “exclusivamente” apresentavam estas “economias externas” –, passam a manifestar sinais de “deseconomias externas”. O que seriam estas “economias externas” e “deseconomias externas”? Esses conceitos vêm originalmente da teoria econômica, e têm sua gênese nos trabalhos de Alfred Marshall (CATIN, 1994). A partir da obra de Marshall, desde o início do século passado, vários autores da geografia econômica e da “ciência regional” passaram a aprimorá-lo, e podemos, de forma esquematizada, dizer que “economias externas” são todos os atributos de um meio ambiente construído que implica em diminuição de custos pros atores econômicos desenvolverem suas atividades. Neste sentido, a existência de sistemas de engenharia modernos de provimento de energia elétrica, as redes de fibra ótica para transmissão de fluxos de internet, etc., podem interferir diretamente na escolha da localização dos atores econômicos (assim como interferem positivamente no seu funcionamento posterior). No mesmo sentido, a existência de instituições de ensino superior e/ou profissionalizante, que disponibiliza amplo treinamento para a mão-de-obra local, pode ser outro atributo favorável a certos atores produtivos; todos esses sistemas técnicos (materiais ou imateriais) presentes no meio urbano que aumentam a eficácia da atividade – através (principalmente) da diminuição dos seus custos de operação – podem ser considerados como “economias externas”. Até a década de 1970, as metrópoles do Sudeste eram as que apresentavam estas “economias” em maior monta, que possibilitou uma industrialização solidamente construída e consolidada.
Porém, a polarização exercida por estas metrópoles, ao ser totalmente comandada pela força dos (grandes) atores privados, acabou por levar a uma “saturação” deste meio ambiente construído, para certos tipos de atividades. Assim, o próprio tamanho das algomerações gera disfuncionalidades, ou “deseconomias externas”. Dentre os exemplos que a literatura destaca, podemos lembrar dos “congestionamentos” do transporte urbano e a dificuldade da mobilidade urbana (que aumenta os custo para todos os atores, privados, públicos, individuais, corporativos); também a “poluição”, de todas as ordens: poluição visual, sonora, atmosférica, podem ser manifestações dessas deseconomias externas. A violência urbana (fruto em grande parte do caráter corporativo da organização da cidade) é também uma “deseconomia externa”. Assim, todo um conjunto de disfuncionalidades (principalmente para os atores hegemônicos), se instalam nas metrópoles do Sudeste, e fazem com que parte das atividades econômicas elejam outros lugares pra se instalar.
Uma última manifestação do que pode ser considerado como uma “deseconomia externa”, neste caso para as grandes empresas hegemônicas: o sindicalismo, os trabalhadores organizados politicamente. Um dos atributos responsáveis pela desconcentração industrial no Estado de São Paulo, em particular a desindustrialização da Região Metropolitana de São Paulo (incluindo aí os municípios de São Caetano do Sul e São Bernardo do Campo, que são cidades que historicamente polarizavam fortemente os investimentos da indústria automobilística), foi o concomitante desenvolvimento deste “sistema de ações” metropolitano, que são os sindicatos dos trabalhadores. Com um sindicalismo bastante ativo, este locais se tornam menos eficientes para as empresas (principalmente as multinacionais), menos interessantes do ponto de vista corporativo. Essa verdadeira “luta de classes” implementada pelos sindicatos passa a ser um importante elemento, com um caráter eminentemente local, que produz solidariedades políticas que buscam a melhoria das condições de trabalho e, em especial, aumento dos salários dos trabalhadores. Assim, o sindicalismo representa uma “deseconomia”, uma pressão local para o aumento dos custos para as grandes empresas.
Que cidades do território brasileiro possuíam os atributos necessários pra instalação dessas atividades modernas, que não as metrópoles? As cidades médias. Assim, um primeiro conjunto de elementos que permite entender este dinamismo das cidades médias hoje no território brasileiro é esse processo duplo: 1. A geração de “deseconomias externas” nas metrópoles consolidadas; e 2. A existência de “economias externas” nas metrópole regionais, e nas cidades médias de nossa rede urbana.
Uma outra característica do crescimento das cidades médias atualmente é que elas reproduzem parte das lógicas urbanas que eram, até a década de 1980/1990, lógicas eminentemente metropolitanas. Um exemplo disso são os novos atores privados que se instalam nas cidades médias (SPÓSITO et alli, 2007). Os “empreendedores imobiliários”, e a especulação imobiliária como negócio (que eram fenômenos eminentemente metropolitanos), passam a agir também em cidades não-metropolitanas. Mas não só esta nova lógica ligada ao capital imobiliário: também o capital comercial, o grande capital comercial, passa a se instalar em cidades médias, aumentando a centralidade destas em relação à sua rede urbana regional. Grandes hiper- e supermercados, assim como os Shopping-centers são exemplos deste capital comercial de grande porte que se tornam novidade nas aglomerações urbanas de porte médio. Estes enormes fixos geográficos, além de instalarem um novo padrão de consumo local, provocam um esvaziamento do comércio tradicional das cidades em que se instalam, drenando também o consumo que era comumente realizado em pequenos estabelecimentos dos aglomerados menores da região. Portanto, para o comércio em cidades menores da região, estes novos fixos geográficos têm efeitos devastadores, ou bastante desestruturadores. Propagandas globais, produtos de consumo duráveis e não-duráveis, passam a ser disponibilizados nestes novos “fronts” de comércio, aumentando a dependência destas regiões em relação à lógicas que lhe escapam.
Além destes novos atores ligados à atividades imobiliárias e ao comércio de varejo, há também uma financeirização recente do território brasileiro já tratada pelo Professor Milton Santos e pela Professora María Laura Silveira desde a década de 1990 (SANTOS, 1993; SANTOS e SILVEIRA, 2001). O que talvez precisemos notar é que houve uma financeirização recente que se mostrou bastante poderosa, incorporando as cidades pequenas e médias do território brasileiro, e que está ligada principalmente ao aumento do “crédito pessoal” nestas cidades. O acesso ao crédito de forma tão “capilarizada” é um fenômeno novo, conforme frisado. E é um fenômeno empiricamente identificável, dada a facilidade com que temos acesso ao crédito, mesmo as classes de menor renda da população. Esta maior “capilaridade” se deu por duas principais razões: 1. A difusão de uma nova qualidade de objetos informacionais ligados à rede suporte de ação dos bancos: caixas eletrônicos, terminais de recepção de cartões de crédito/débito, e os próprios cartões magnéticos pessoais; e 2. Somados a estes novos sistemas e objetos técnicos, também se difundem com grande ubiqüidade os “correspondentes bancários” no território brasileiro, ampliando o acesso aos serviços bancários no território (que antes eram prestados só por agências e postos de atendimento) (CONTEL, 2007). A partir de meados da década de 1990, não só os “Correspondentes” se difundem, mas são criados e banalizados também novos “canais eletrônicos” que diversificam e ampliam o alcance da financeirização do território: se difundem o “banco por internet” (internet-banking), os terminais de auto-atendimento, centrais telefônicas (call-centers) para a venda de produtos financeiros etc. Tudo isso presente também não só nas cidades médias, mas em praticamente toda rede urbana brasileira.
Esta maior força de organização do território por parte dos atores corporativos traz também – obviamente – efeitos perversos para a população brasileira. Com a chegada desses novos atores privados, geralmente o Estado local (as prefeituras), ao invés de se preocupar com políticas públicas abarcativas, com políticas públicas de caráter eminentemente republicano (políticas “não-hegemônias”), acabam por ser mais sensíveis aos interesses corporativos. Assim, direcionam boa parte dos recursos humanos e financeiros da cidade para fazer frente às vicissitudes das corporações. Toda a sorte de infra-estruturas necessárias para a instalação destas atividades mais “modernas” são patrocinadas e/ou construídas pelo Estado local. Acordos – mais ou menos lícitos – com incorporadores imobiliários, com os próprios administradores dos Shopping Centers/Hipermercados, são realizados, independentemente da repercussão ser desastrosa para o dinamismo mais “horizontal”, que pré-existia nestas cidades. A chegada desses fixos geográficos “globais” geralmente é tida como elemento de modernização dos aglomerados urbanos. Um Shopping Center, um hipermercado são fixos geográficos tidos como “dinâmicos” do ponto de vista da economia local, mas muitas vezes os efeitos perversos são maiores do que os “ganhos”, se pensarmos a quem servem, e a “desancoragem” (WERLEN, 1999) que provocam na vida local e/ou regional pré-existente.
Economias e deseconomias externas, novos atores privados, financeirização do território, anuência e/ou complacência do Estado local para com as vicissitudes das corporações, estes são alguns dos processos que nos permitem tocar no modus operandi da rede urbana brasileira atual. Por último, mas não menos importante, outro fator que vêm alterando a dinâmica do território é a recente “modernização agrícola”, que ocorre seletivamente no território brasileiro. Este seria outro elemento que permitiria entendermos as causas do crescimento de algumas cidades médias, hoje no país. A modernização agrícola incorporou em parcelas do território novas necessidade de consumo, tanto consumos produtivos quanto consumos que denominaríamos de consuntivos (SANTOS, 1993). O que são consumos consuntivos? São aqueles consumos que se esgotam si mesmo, consumos urbanos em geral, e em especial aqueles que têm função de prover status social aos que a ele têm acesso. São um tipo de consumo de bens duráveis, mas principalmente de não-duráveis (incluindo os serviços), que diversificam os de consumo individual ou familiar.
Mas do ponto de vista dos “consumos produtivos”, esta modernização agrícola leva a oferta em áreas no interior do território de serviços modernos, sobretudo serviços ligados às novas necessidades desta “modernização agrícola”: financiamentos, venda de maquinário, de insumos de todos tipos, serviços ligados ao armazenamento e escoamento da produção, serviços de prestação/disponibilização de informações sobre a venda dos cultivos (créditos, jutos, cotações de preços etc.); isto é, serviços de provimento de “insumos informacionais” aos cultivos contemporâneos. Principalmente as unidades agrícolas voltadas à produção de cultivos para a exportação, ou para circuitos industriais nacionais (soja, cana) precisam destes “insumos informacionais” previamente à própria decisão do plantio. A definição do que vai ser produzido muitas vezes depende dessa informação a respeito dos preços internacionais daquela determinada commodity, sendo este mais um exemplo de como foram alteradas as necessidades de consumo desses espaços agrícolas modernizados. Esta nova realidade, por seu turno, influencia também o crescimento das cidades médias, principalmente nos “fronts agrícolas” (SANTOS e SILVEIRA, 2001; ELIAS, 2006). Certas cidades de porte médio passam a ofertar serviços informacionais, através da assistência técnica, de empresas de agrimensura/zootecnia, prestação de serviços de engenheiros agrônomos, etc. Estas necessidades geram demanda suficiente (no melhor estilo do “limite inferior” christalleriano) para a instalação de empresas de comércio de implementos agrícolas, concessionárias de automóveis, insumos, sementes, fertilizantes etc.
Podemos dizer, assim que se formam novos circuitos de produção, geralmente muito modernos, nos moldes do que seriam os “circuitos espaciais de produção”, como denominou o Professor Milton Santos em seu livro Metamorfoses do Espaço Habitado (SANTOS, 1988). Assim, estes circuitos incorporam as atividades que são realizadas nas fazendas, tirando-as da “autonomia relativa” que as caracterizavam. São cada vez menos unidades produtivas “ensimesmadas”, e muitas delas já são criadas (nas áreas de front), com as dimensões, a compartimentação e a dotação de sistemas técnicos que o período da globalização “exige”. Tanto “à montante”, quanto “à jusante” dos cultivos, há uma série de processos e produtos utilizados, que são já eminentemente industrializados e “informatizados”; a “circulação” ganha primazia sobre a própria “produção”. As unidades produtivas passam a fazer parte de uma totalidade maior, que as vezes envolve uma rede urbana nem só nacional, as vezes até uma rede urbana internacional, que é quem vai fornecer esses insumos para a produção agora em “circuitos agroindustriais”. Esta realidade é que parece caducar a clássica divisão “urbano-rural”, como comumente a sociologia rural – e parte da própria geografia agrária – ainda hoje trabalha.
Destacar estes mecanismos parece também importante pois, como frisamos, algumas cidades médias abrigam esses tipos de oferta de bens e de serviços. Nalgumas dessas cidades, em que a modernização agrícola se instala de forma “avassaladora”, gerou-se mesmo a necessidade de criar um novo conceito para entendê-las; é neste sentido que a Professora Denise Elias nos mostra que algumas cidades médias nesses fronts agrícolas modernos podem ser consideradas como “cidades do agronegócio” (ELIAS, 2006). Estas cidades são muitas vezes criadas por desmembramento de municípios mais antigos (desmembramentos possibilitados no período pós-Constituição de 1988), ou seja, se constituem em novos núcleos urbanos também do ponto de vista político-administrativo. São cidades de crescimento rápido, que não possuem uma tradição produtiva em nenhum setor econômico, e seu surgimento e dinâmica atual têm relação restrita e direta com essa modernização agroindustrial. Esse conjunto de processos permitiu que a professora Denise Elias propusesse o nome de “cidades do agronegócio”, a essas aglomerações novas na rede urbana brasileira. São cidades que atuam na atração de migrantes, sazonais ou não. Assim, também uma mão de obra volante passa a fazer parte da vida de relações dessas cidades: os trabalhadores da soja, da cana-de-açúcar, da laranja, do café, criando uma migração que tem relação com a sazonalidade dos cultivos, e com os ritmos dos circuitos espaciais da agroindústria. Além da mobilidade da mão-de-obra, outro fenômeno eminentemente geográfico que passa a ser comum nestas cidades são as “feiras agropecuárias”. O aumento e a diversificação destas feiras é também um fenômeno relativamente novo em algumas regiões. A quantidade enorme de novos produtos e serviços necessários para o desenvolvimento da atividade da agricultura moderna gerou também essa proliferação de feiras agropecuárias, voltadas para a difusão de meios técnicos no espaço agrícola, e para difundir também ações hegemônicas neste mesmo espaço. São também cidades de médio porte que recebem estas feiras de maior tamanho, e que geram dinamismo local bastante importante, sazonalmente.
Por fim, a idéia de “exército de reserva de lugares” pode ser outra proposição teórica que nos ajuda a entender o crescimento de cidades médias na rede urbana brasileira. Esta idéia foi forjada pelo geógrafo britânico Richard Walker, e trabalhada pelo professor Milton Santos e pela professora Denise Elias, aqui no Brasil. Como entender a operacionalidade desta idéia para o território brasileiro? Ao longo das décadas de 1970 e 1980, foram sendo incorporados no território – especialmente em cidades de porte médio – uma série de sistemas de engenharia e de fixos geográficos voltados à possibilidade de desconcentração da indústria. Assim, foram modernizadas rodovias, instaladas instituições de ensino superior públicas, redes de energia e de transmissão de informações, que tornaram parcelas enormes do território “disponíveis” para a realização de investimentos produtivos modernos. Esta dotação de meios modernos no interior do território permite-nos dizer que se formou um “exército de reserva de lugares”, no espaço nacional. Esta nova distribuição de infra-estruturas e serviços se deu concomitantemente ao surgimento das “deseconomias externas” nos grandes centros metropolitanos nacionais, conforme frisado. Assim, o Estado nacional (em suas estruturas federal, estaduais e municipais) criou no território brasileiro alguns lugares passíveis de abrigar essas atividades mais modernas. Da mesma forma que na idéia que na idéia original de Karl Marx (que propõe existir um “exército industrial de reserva” de pessoas a serem incorporadas na produção capitalista), há também no território brasileiro uma série de cidades (principalmente de porte médio), que possui os equipamentos necessários pra participar dessa desconcentração industrial e/ou produtiva. No caso de São Paulo, por exemplo, poderíamos mencionar a instalação de uma rede de universidades públicas no interior do estado (os campi da Unesp), que foi essencial para criar uma mão-de-obra qualificada, necessária às atividades mais modernas em vias de desconcentração.
Estas são algumas das reflexões que tentamos sistematizar neste texto, que possivelmente nos auxiliam na explicação da rede urbana brasileira atual. Para encerrar, alguns comentários de ordem epistemológica. Ainda que o conceito de “rede” tenha ganhado uma importância enorme na geografia, a noção de “rede urbana” vem sendo muito criticada, principalmente por uma das mais importantes geógrafas brasileiras, a Professora Maria Adélia de Souza. Sua proposta de “conexões geográficas” (SOUZA, 1993) é uma alternativa interessante para se pensar a “vida de relações” das cidades brasileiras atuais. Outro ponto a ser destacado é que parece não haver mais condições de se entender qualquer rede urbana “nacional”, sem o entendimento das relações dessa rede urbana com a rede urbana mundial. Há certos tipos de serviços, profissões, que só existem em algumas cidades do planeta, e que comandam a partir destes pontos privilegiados a rede urbana “mundial”. Não é por outro motivo que textos importantes de Peter Hall ([1966] 1979), John Friedmann (FRIEDMANN e W OLFF, 1982), Arie Shachar (1983), Saskia Sassen (1993) vem sendo lidos e utilizados para entender a formação desta “rede de cidades mundial” (TAYLOR et alli, 2000). Não é possível entender redes urbanas nacionais (ainda que tenham um enorme dinamismo interno) sem o entendimento de suas relações com esta rede urbana mundial, “globalizada”.
Outro aspecto para chamarmos a atenção – e esta não me parece uma questão de “diletantismo” ou de simples “erudição” – é a necessidade de estarmos sempre retomando os autores clássicos de nossa disciplina. Pode parecer paradoxal, mas re-conceitualizar as categorias que foram importantes na nossa tradição disciplinar parece uma condição sine qua non para a produção de um discurso coerente com nosso tempo histórico atual. Sem esse percurso crítico sobre as categorias geográficas, corre-se o risco de propor análises “já realizadas”, assim como corre-se sempre o risco de cairmos em “sociologismos”, “economicismos”, que sempre atravancaram as análises geográficas do espaço. Este foi um pouco o desejo do argumento que apresentamos, ao tratarmos de algumas variáveis do nosso atual período histórico (os dados da “luta de classes”, da “idade das técnicas”, da dinâmica da rede urbana brasileira), sem deixar de analisá-los sob um viés geográfico. É neste sentido, por último, que poderíamos retomar outra proposta do professor Milton Santos, que permitiria uma organização da rede urbana nacional mais equânime, mais justa, mais fiel as necessidades das pessoas (nos lugares em que elas vivem). Para pensarmos na rede urbana brasileira em termos prospectivos, talvez fosse interessante fazê-lo a partir da idéia de uma “federação de lugares” (SANTOS, 2000). Isto é, lembrar que o lugar – como categoria geográfica re-significada para nosso período atual – é a “dimensão espacial do cotidiano”(SANTOS, 1996). Este conceito de “lugar” pode auxiliar a pensar nas realidades urbanas (metropolitanas ou não) do país, jogando foco nos “usos” que se fazem do território contemporaneamente. Fundamentalmente, é preciso fazer com que as políticas públicas atentem pra essas necessidades dos “de baixo”, dos “usos populares” do território, e não partir das necessidades corporativas. Assim, refazendo a federação a partir dessas “necessidades genuínas” dos lugares, chegar-se-ia numa sensibilização maior dos órgãos públicos, para a transformação da nossa realidade territorial em direção à cidadania em moldes plenos.

Referências Bibliográficas
ASCHER, François. Métapolis, ou l’avenir des Villes. Paris: Odile Jacob, 1996.
ARANHA, Valmir. “Mobilidade pendular na metrópole paulista”. In: São Paulo em Perspectiva Vol. 19, no. 4. 2005, pp. 96-109.
BALASSA, Bela (1961). Teoria da Integração Econômica. Lisboa: Livraria Clássica, 1972.
BUNGE, William (1962). Theoretical Geography. Lund: Lund Studies in Geography/Royal University of Lund (2nd. Ed). 1966.
CATIN, Maurice. “Externalités”. In Antoine BAILLY et Pierre-Henri Derycke (orgs.). Encyclopédie d’Économie Spatiale. Paris : Economica. 1994, pp. 99-103.
CHRISTALLER, Walter (1933). Central Places in southern Germany. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1966.
CONTEL, Fabio Betioli. Território e finanças. Técnicas, normas e topologias bancárias no Brasil. São Paulo: FFLCH/USP (Tese de Doutorado), 2007.
CORDEIRO, Helena Kohn e Francisco Ladeira. “O Espaço aéreo favorece a desterritorialidade?”. In SANTOS, Milton et alli. Território: Globalização e Fragmentação. São Paulo: Editora Hucitec/ANPUR, 1994. Pp. 283-295.
CORREA, Roberto Lobato. “Construindo o conceito de cidade média”. In SPÓSITO, M. E. B. (org). Cidades médias. Espaços em transição. São Paulo: Expressão popular. 2007, pp. 23-33.
ENDLICH, Angela Maria e Marcio Mendes Rocha (orgs.). Pequenas cidades e desenvolvimento local. Maringá: PGE, 2009.
ELIAS, Denise. Globalização e agricultura. São Paulo: Editora Hucitec. 2003.
__________. “Globalização e fragmentação do espaço agrícola no Brasil”. In Scripta Nova (Barcelona). Espanha, vol. 1, 2006, pp. 59-81.
FRIEDMANN, John e Goetz Wolff. “World city formation: an agenda for research and action”. In: International journal of urban and regional research Vol. 6, no. 3, 1992, pp. 309-344.
HALL, Peter (1966). Les Villes mondiales. 1979.
IBGE. Regiões de Influência das Cidades. Rio de Janeiro: IBGE. 2008.
MONBEIG, Pierre (1952). Pioneiros e fazendeiros no estado de São Paulo. São Paulo: Editora Hucitec/Polis. 1984.
PRESTON, Richard. “Christaller’s research on the geography of administrative areas”. In Progress in human geography Vol. 16, no. 4, 1992, pp. 523-539.
ROCHEFORT, Michel (1957). “Métodos de estudo das redes urbanas (Interesse da análise e do setor terciário da população ativa)”. In Boletim Geográfico CNG/IBGE Ano XIX, no. 160. 1961. pp. 3-18.
ROCHEFORT, Michel e Jean Labasse. “Équipements tertiaires supérieures et réseau urbain”, In Économie et Humanisme No. 159. 1965, p. 54-61.
SANTOS, Milton (1975). O Espaço dividido. Os dois circuitos da economia urbana nos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora. 1979.
__________. Metamorfoses do espaço habitado. São Paulo: Editora Hucitec, 1988.
__________. A Urbanização brasileira. São Paulo: Editora Hucitec, 1993.
__________. A Natureza do espaço. Técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora Hucitec, 1996.
__________. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Editora Record. 2000.
SANTOS, Milton e María Laura Silveira. Brasil: Território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.
SASSEN, Saskia. “A cidade global”. In LAVINAS, Lena et alli (orgs.). Reestruturação do espaço urbano e regional no Brasil. São Paulo: Hucitec/ANPUR, 1993, pp. 187-202.
SHASCHAR, Arie. “A cidade mundial e sua articulação ao sistema econômico global”. In BECKER, Bertha et alli (orgs.). Abordagens políticas da espacialidade. Rio de Janeiro: UFRJ, 1983, pp. 75-97.
SOUZA, Maria Adélia A. de. “Conexões geográficas: um ensaio metodológico (uma versão ainda preliminar)”. In Boletim Paulista de Geografia no. 71, 1993, pp. 113-127.
SOUZA, Maria Adélia e Jorge Francisconi. Política Nacional de Desenvolvimento Urbano - Estudos e Proposições Alternativas. Brasília: Instituto de Planejamento IPLAN, 1976.
SPÓSITO, Maria Encarnação Beltrão (org.). Cidades médias. Espaços em transição. São Paulo: Expressão popular. 2007.
SPÓSITO, Maria Encarnação Beltrão, Denise ELIAS, Beatriz Ribeiro SOARES, Doralice Satyro MAIA e Edvânia T. A. GOMES. “O Estudo das cidades médias brasileiras: uma proposta metodológica”. In SPÓSITO, M. E. B. (org). Cidades médias. Espaços em transição. São Paulo: Expressão popular. 2007, pp. 35-87.
TAYLOR, Peter, Jonathan Beaverstock e Richard Smith. “World-city network: a new metageography”. In: Annals of the Association of American Geographers Vol. 90, no. 1, 2000, pp. 123-134.
ULMANN, Edward (1954). “Geography as spatial interaction”. In ULMANN, Edward. Geography as spatial interaction. Seattle/London: University of Washington Press. 1980, pp. 13-27.
WERLEN, Benno. Sozialgeographie alltäglicher Regionalisierungen Band 1: Zur ontologie von gesselschaft und raum. Stuttgart: Franz Steiner Verlag. 1999.