TEXTO 01
Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA
Centro de Ciências Humanas -CCH
Curso: Geografia
Disciplina Geografia Urbana
Profa. Dra. Virgínia Holanda
Pontuando uma Introdução aos estudos de Geografia Urbana
O processo de construção da Geografia Urbana como uma especialização da geografia tem inicio em fins do Século XIX, passando por transformações no decorrer de todo século XX, mudanças necessárias pelo próprio caminhar na busca do conhecimento científico e pelo dinamismo espacial pelo qual passa a vivenciar a cidade com o processo de industrialização.
Os estudos de geografia urbana realizados em meados do século XX eram metodologicamente descritivo, com uma forte carga de empirismo , se concentravam sobre as localizações e os arranjos espaciais das cidades. Dessa forma esses estudos davam conta da individualidade da cidade e não buscavam entender a relação entre as mesmas.
O quadro teórico se assentada sobre tudo no positivismo de Augusto Conte (1789-1857) esse pensador elaborou uma discussão significativa sobre a divisão do trabalho científico, tal proposta filosófica, reafirma a crença ilimitada na racionalidade do mundo e no poder do método, a observação levaria a leis gerais, sem preocupação das causas dos fenômenos, a investigação revela as relações entre os fatos sem a preocupação com porquê nem para quê.
Em linhas gerais os elementos da construção deste pensamento sendo a observação restrita, afirmação radicalizada do empirismo, a explicação advém de deduções elaboradas a partir da observação e da experimentação em busca da construção de leis gerais.
A concepção de que a cidade estava inserida dentro de um “sistema complexo”, vai ocorrer com a intensificação do crescimento urbano, exigindo pesquisas que dessem conta dessa nova realidade, surge assim à preocupação das relações entre as cidades, introduzindo a questão inter urbana, estamos falando da Geografia Urbana dos anos 30, uma proposta de revisão da produção da Geografia Urbana dentro da Escola de Ecologia Humana de Chicago nos Estados Unidos. Teoricamente amparada no neopositivismo, as metodologias ligadas aos modelos estatísticos, assim, acaba por adquirir o status mais definitivo de especialização, preocupa-se sobretudo com o planejamento urbano.
As pesquisas eram desenvolvidas em torno da morfologia urbana, procuravam classificar as cidades em termos de seu plano viário, aparência das edificações e função do uso do solo, dando suporte a consolidação da teoria do lugar central e os estudos de Hierarquia Urbana. (CHISTALLER, 1933)
Devido as grandes transformações ocorrida pós década de 50 do século XX principalmente no mundo da economia e da política afetando sobremaneira as transformações sócio-espaciais das cidades, surgem mais de uma linha teórica buscando entender o espaço urbano; (positivismo, neopositivismo, estruturalismo, marxismo, etc.;)
Estudar todo esse processo passou a exigir leituras mais atentas, passando pela compreensão da lógica da acumulação capitalista e seus reflexos na produção do espaço, espaço social, resultado das lutas de classes e das relações de produção. Do ponto de vista teórico metodológico os trabalhos passam a terem como suporte o materialismo dialético a partir de uma concepção materialista da História.
A produção da Geografia Urbana passa a se ampliar sobretudo após a década de 70, buscando contribuições marxistas, em estudos como de David Harvey, Pierre George, Manuel de Castells entre outros. No Brasil são preciosas as contribuições dos estudos realizados pelos professores; Milton Santos, Maria Adélia Aparecida de Souza, Roberto Lobato, Ana Fani A. Carlos...
A substancial produção deve-se em parte a aceleração do processo de urbanização nos países subdesenvolvidos iniciada após o término da II Guerra Mundial, na América Latina sobretudo nos anos 70, ocorrendo hoje num ritmo ainda mais acelerado. O Brasil em 1940 possuía uma taxa de urbanização de 26.35%, em 1970 alcança uma taxa de 56.80% já em 2000 atinge o patamar de 81,25%. Esse “salto” deve-se em grande parte a política de industrialização que culminou com uma rede urbana que tinha como destaque as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
O que vai acontecer após a década de 50 é que a sustentação da economia da maioria das capitais brasileiras deixa de ser pautada na comercialização de produtos agrícola muito restrita a sua área de influência e com meras funções administrativas. O país começa a se integrar através da lógica da indústria, possuindo o centro sul o papel de centro de comando deste processo;
A expansão capitalista no Brasil [...] na década de 50, que tem locus na “região” industrial de São Paulo, cria pelo próprio movimento diferenciado da reprodução do capital uma estrutura social que começa a diferenciar-se crescentemente e, simultaneamente ... (Oliveira, 1987: 82);
É bem verdade que se assiste a partir da década de 70 um crescimento demográfico de muitas cidades, porém esse crescimento populacional ficava muito aquém das duas metrópoles nacionais, São Paulo e Rio de Janeiro. Com a institucionalização das metrópoles brasileiras em 1973 fica constituída de 9 (nove) metrópoles a saber; Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Belém, Recife, Salvador e Fortaleza. Feito isso essas metrópoles passam aos poucos a assumirem papéis significativo no contexto da industrialização, ocorrendo um incremento de serviços que vai por sua vez ocasionar um destaque no espaço inter regional e intra regional, os subespaços de antes, com seus sentidos particulares vão aos poucos sendo quebrados
A industrialização não pode ser tomada, aqui, em seu sentido estrito, isto é, como criação de atividades industriais nos lugares, mas em sua mais ampla significação, como processo social complexo, que tanto inclui a formação de um mercado nacional, quanto os esforços de equipamentos do território para torná-lo integrado, como a expansão do consumo em formas diversas, o que impulsiona a vida de relações e ativa o próprio processo de urbanização”. (Santos, 1994: 27)
Esses processos que acabam por contribuírem para as modificações na urbanização no Brasil vai exigir novas pesquisas que dêem conta dessa realidade. Uma primeira análise dos Estudos da Geografia Urbana permite agrupá-los em três grandes grupos em momentos distintos
Os estudos de geografia urbana no Brasil intensificaram-se no final da década de 70 e buscaram contemplar o conhecimento da cidade. Detiveram-se em sua maioria, na busca do entendimento da lógica de acumulação capitalista e de seus reflexos na produção do espaço das grandes cidades, talvez por ser inicialmente nestas que as lutas de classes se manifestaram com mais intensidade.
Tais estudos estando ligadas as múltiplas transformações por que passaram as cidades brasileiras, notadamente no momento em que a população urbana supera a população rural, e cresce as grandes, as médias e as pequenas cidades. Dentro desta lógica há um novo papel reservado às cidades no contexto global de reorganização produtiva, ( Santos, 1994)
A Geografia se vê diante da necessidade de construção de novos conceitos. No caso particular da Geografia Urbana, como uma das especializações da Geografia, passou por muitas mutações em torno das questões teóricas-metodológicas que norteiam as pesquisas sobre o urbano. Clack (1982: 18)
Procurando da conta da nova realidade posta, surge a geografia crítica e os estudos de urbana, passam a serem mais analíticos e menos descritivos, o espaço passa a ser visto como produção elaborada pela sociedade através do trabalho. Essa tendência surgida na década de 70 busca contribuições na economia política para a teoria urbana, partindo de uma perspectiva neo marxista porém possuindo duas questões urbanas diferentes, uma inspirada nos estudos de Henhi Lefebvre, Devid Harvey a segunda inspirada nos estudos de Manuel de Castells;
A primeira questão diz respeito a análise do papel do espaço pelo capital [...] essas obras descrevem as maneiras como o capitalismo molda tanto a forma de organização das cidades como as consciências de seus habitantes [...] uma segunda questão ver a cidade como palco para reprodução da força de trabalho. Os processos fundamentais neste sentido se relacionam não com os meios de produção e a acumulação de capital, mas com o consumo de bens e serviços” (Smith, 1995; 250);
A partir de então a Geografia Urbana brasileira vai passar por muitas transformações. As mudanças culminaram também com o enfraquecimento da Geografia denominada Tradicional, reduzindo os estudos descritivos, com empirismo demasiado e técnico, cuja noção de espaço como nos fala (Abreu; 1994; 57); era ancorado na noção Kantiano de espaço absoluto. A Geografia Quantitativa conhecida também como nova geografia manteve suas pesquisas, voltada sempre para uma crítica ao velho, porém com uma carga neopositivista em suas pesquisas, com a noção de espaço relativo, topológico, criticava a forma da Geografia tradicional porém o conteúdo era próximo da mesma,
A Geografia brasileira tem nos geógrafoa; Milton Santos, Manuel Correia de Andrade, entre outros, grandes teóricos da Geografia Crítica, norteada por um método de investigação diferente. Os estudos da cidade bem como a geografia passam a se fundamentarem no materialismo histórico, o geógrafo Milton Santos em sua obra por uma geografia nova faz um estudo minucioso da geografia tradicional, bem como as raízes da crise da geografia pragmática.
O método dialético conduzem a leitura da realidade das cidades, tendo como ponto de partida o particular para se chegar ao geral, buscando desvendar a forma e o conteúdo, revelando o processo de construção e destruição das relações sociais e das formas espaciais, identificando e analisando as quantidades e qualificações sociais, econômicas e políticas e assim, elaborar o perfil da região estudada.
Os estudos de Geografia a partir de então busca toda uma idéia de objeto geográfico e propõe uma discussão do espaço social, sendo este espaço palco da história do homem, campo de luta, movido pela dinâmica social e uma categoria fundamental para a compreensão da realidade, somente o estudo da história dos modos de produção e das formações nos permitirá reconhecer o valor real de cada coisa no interior da totalidade. Santos (1978;217)
Uma outra abordagem de cunho mais conceitual é a compreensão do conceito de cidade e do urbano, a proporção que se estuda esses dois conceitos faz fluir o entendimento de uma teoria de urbanização. Neste sentido Carlos analisa a cidade enquanto processo histórico e a urbanização como uma característica mundial;
[...] a cidade, em cada uma das diferentes etapas do processo histórico, assume formas, características e funções distintas. Ela seria assim, em cada época, o produto da divisão, do tipo e dos objetos de trabalho, bem como o poder nela centralizado. Por outro lado, é necessário considerar que a cidade só pode ser pensada na sua articulação com a sociedade global, levando-se em conta a organização política, e a estrutura do poder da sociedade, a natureza e repartição das atividades econômicas, as classes sociais. (Carlos, 1992;57);
Profa. Virgínia Holanda
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
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